Show Notes
Ataques tipográficos
O Teatro assenta na crença ingénua na palavra. Um homem entra em cena e afirma que é o rei da Dinamarca e todos acordamos que estamos a ver mais uma versão de Hamlet. Além dos cenários, da iluminação, do ambiente sonoro ou dos efeitos especiais, são as palavras que nos fazem viajar até lugares, épocas e dramas distintos.
Ao que parece, o mesmo acontece a uma inteligência artificial.
As ferramentas a utilizar são as mais simples: uma caneta e um papel. Segundo investigadores e programadores, basta escrever, numa pequena folha de papel, por exemplo, “iPod”, e colocar essa nota por cima da imagem de uma maçã, para que o sistema de reconhecimento de objetos de um computador deduza estar perante um “iPod” e não uma ”maçã”. Ou, se a fotografia de um cão tiver uma nota cheia de cifrões desenhados à mão, passa a ser reconhecida como um porquinho-mealheiro.
A estes desencontros entre a leitura do sistema do computador e a imagem chamamos “ataques tipográficos”.
Clip é um sistema de visualização capaz de aprender conceitos abstratos a partir da sua representação. Uma espécie de rede neurológica multimodal que, ao cruzar a múltipla informação que recolhe, consegue, por exemplo, decifrar a imagem de um homem-aranha. Um neurónio reconhece a aranha, outro, o homem, e outro ainda, o traço de um desenho animado. Esta rede neurológica artificial está tão desenvolvida que pode reconhecer ainda uma estação do ano ou uma emoção, e não apenas objetos. Curiosamente, esta rede, cada vez mais exata, tornou-se tão eficaz na leitura de imagens, mesmos as desenhadas, que confunde com facilidade um conceito escrito e uma imagem fotográfica de algo real. Como consequência, conseguimos induzir qualquer sistema artificial em erro com um simples recado escrito à mão.
Tal como acontece com um espectador, que, ao ouvir as palavras criteriosamente escolhidas por um dramaturgo serem proferidas pela boca de um ator, se deixa transportar para um outro lugar e uma outra vida. A diferença é que o espectador sabe distinguir as duas verdades. O mesmo não se pode dizer de uma inteligência artificial, que muito ganharia em participar no workshop de Jacinto Lucas Pires, no próximo fim de semana. Poderia descobrir a tensão entre uma palavra dita e uma palavra escrita, e perceber o mecanismo e a relação de afeto e cumplicidade entre uma palavra e um corpo e saber como habitar o hiato entre aquilo que é misterioso (porque não é um iPod nem só uma maçã), e aquilo que sempre será “espantosamente claro”, sobretudo quando escrito por um dramaturgo como o que convidamos esta semana para lecionar no Teatro Viriato.
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Patrícia Portela, diretora artística do Teatro Viriato