Consultório de Bolso

Dona Ivone tem 84 anos, é viúva e mora no mesmo apartamento do bairro Santana, em Porto Alegre, desde 1962. Terceiro andar, sem elevador. Chega na Clínica da Família Modelo com a filha Rosana e uma sacola com cinco caixinhas de remédio. A pressão está em 128 por 70. E ela conta que fica tonta quando levanta da cama — e que tem medo de cair na escada.

A vontade é tirar um remédio. O OPTIMISE (Sheppard et al., JAMA, 2020) testou exatamente isso em 569 pacientes acima de 80 anos, em 69 unidades de atenção primária inglesas. Só que ele responde uma pergunta que não é bem a que a Dona Ivone fez.

O que a gente discute:

  • Como ler um ensaio de não inferioridade — e por que a margem escolhida antes do estudo é praticamente a pergunta inteira
  • A confissão dos autores: a margem de 0,90 foi definida por opinião, não por evidência prévia. E o resultado passou com o limite em 0,92 — se a margem fosse 0,95, teria falhado
  • O resultado: 86,4% contra 87,7% com a sistólica abaixo de 150 em 12 semanas. A pressão subiu 3,4 mmHg em média. Ninguém descompensou
  • Os três achados que a manchete não carrega: um terço não sustentou a retirada, apareceram 10 pontos percentuais a mais de eventos adversos em quem parou, e nenhum sintoma melhorou
  • Por que o desfecho ser pressão, e não queda, muda tudo para a Dona Ivone — e o que os autores escrevem sobre benefícios e danos de longo prazo permanecerem desconhecidos
  • Cinco condutas para a consulta, incluindo a mais difícil: não prometer que a tontura vai melhorar
  • A inversão em relação ao episódio passado: aqui todos os anti-hipertensivos estão no Componente Básico da RENAME. O acesso não é a barreira — a barreira é decisão clínica

Para levar no bolso: em idoso acima de 80 anos, com pressão controlada e dois remédios, dá para tentar tirar um sem estragar a pressão em três meses. Só que o estudo mediu pressão, e o que a gente teme é queda.

Na terça: o VITAL, quase 26 mil participantes, testando se vitamina D previne fratura. E, pela primeira vez na temporada, um ensaio em que um em cada cinco participantes era negro.

What is Consultório de Bolso?

O Consultório de Bolso é um podcast de Atenção Primária à Saúde, em português, para quem atende de verdade.

Na Temporada 3, são cem artigos — os de maior impacto clínico para a APS nos últimos cinco anos —, um por episódio, toda terça e toda quinta, às 10h de Brasília.

Cada episódio começa numa consulta: um paciente com nome, endereço e história, numa unidade básica que existe de verdade, em uma cidade diferente a cada semana. A partir dele, a gente destrincha o estudo por inteiro — o desenho, os números, quem financiou, quem estava na amostra e quem ficou de fora. E termina onde interessa: o que muda na consulta de segunda-feira, e o que não muda.

Sem hype e sem promessa que o SUS não pode cumprir. Quando o remédio não chega na farmácia da unidade, a gente diz. Quando os autores escrevem que o estudo não fala do nosso paciente, a gente lê a frase em voz alta.

Para médicos de família, enfermeiros, técnicos, agentes comunitários e residentes. Ciência que vira conduta, ou que evita uma.