Show Notes
O meu lugar preferido no Teatro Viriato é a teia. É o lugar onde estou e não estou no teatro. Onde estou e não estou no palco. É daqui que vejo o Fraga, o encenador que agora prepara a estreia da peça “Senso” a partir das peças didáticas de Bertolt Brecht, a falar com a sua equipa antes de começar o ensaio geral. É daqui que o ouço a agradecer a cada um dos seus atores, a cada um dos membros da equipa do Teatro Viriato, a cada um dos dias que aqui esteve este mês a construir uma obra, lado a lado, com uma equipa que se admira, que se respeita e que se conhece muito bem. Grande parte do elenco é de Viseu ou dos arredores, e começou a fazer Teatro ao lado de ou por causa de Fraga.
Tem sido um enorme privilégio, enquanto recém-chegada a Viseu, receber este projeto por um tempo prolongado. Criámos rotinas, trocámos textos e conversas, histórias de outros tempos. Com eles viajei por muitas cidades de Viseu, algumas mais antigas, outras recentes, e foi surpreendente reconhecer alguns caminhos comuns (ainda que separados pela geografia) assim como perceber que a história da atividade performativa nesta cidade muito deve à loucura, ao empenho, à dedicação e à paixão deste encenador que entre aulas, espetáculos e outras aventuras, apoiou muitos dos artistas e autores que a cidade tem.
Nestes últimos três meses, de janeiro a março de 2021, um período em que não nos foi possível abrir as portas ao público, acolhemos mais de 50.
Apesar da distância, das restrições e das múltiplas dificuldades que os dias foram apresentando acolhemos o projeto “A fragilidade de estarmos juntos”, “Aleksei ou a Fé” e agora “SENSO”, três produções inteiramente produzidas em Viseu com um elenco maioritariamente da região.
Estes meses ficaram na minha memória, enquanto diretora artística deste teatro, como o início de uma experiência num teatro cheio de histórias e memórias que se fundem com a história dos artistas e da sua comunidade. Um tempo que vivi sempre acompanhada daqueles que me adotaram e me abriram as portas para que pudesse entrar e fazer o meu caminho.
Tal como diz Guilherme Gomes, ator nesta peça que estreamos no Dia Mundial do Teatro (e encenador e ator do Teatro da Cidade), talvez não seja por acaso que, a um grupo de atores, não se chama nem banda, nem empresa, mas “companhia”. É assim, o Teatro Viriato. Um lugar onde se vivem os dias, mesmo os mais difíceis, oferecendo, partilhando espetáculos de múltiplos formatos, sempre em boa companhia.
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Patrícia Portela, diretora artística do Teatro Viriato