Podcast da escola Maple Bear Marília para dar voz a comunidade escolar e impulsionar o potencial das pessoas através da educação.
00:00 Speaker 1: Pode ver, pode falar.
00:10 Speaker 2: Olá, sejam todos bem-vindos a mais um PodBear Pode Falar. E hoje nós temos o privilégio de mergulhar no universo da arte, da educação e da narração. E conosco hoje o nosso Giuliano Tierno, que vai conversar um pouquinho sobre esse universo da narração.
00:29 Speaker 3: Uma alegria estar aqui com vocês. Vai ser uma delícia essa conversa.
00:35 Speaker 1: E o Juliano é doutor em artes, pós-doutorando na USP e é sócio-fundador da Casa Tombada. Muito interessante isso.
00:46 Speaker 2: Então, Juliano, você é o artista da palavra. Você poderia falar um pouquinho mais para a gente sobre essa proposta, sobre esse aspecto? Sim.
00:58 Speaker 3: Bom, uma alegria estar aqui, acho que é uma conversa com essa comunidade escolar que me dá muito prazer. Eu estou aqui nesse evento também participando de
01:08 Speaker 1: um...
01:09 Speaker 3: de um momento importante da história da escola com a palavra. Eu tenho uma relação com a palavra desde muito pequeno, com a oralidade. Eu sempre gostei muito de ouvir as pessoas mais velhas. A gente não sabe muito bem porque a gente tem isso. Isso nasce com a gente. Um interesse por ouvir o que os outros tinham para dizer, principalmente quando era alguma coisa mais esquisita, que depois eu fui descobrir que tinha a ver com a literatura, com as histórias, as histórias de tradição e tal. O que eu estou chamando de esquisito? Era aquilo que fugiu... pouco da regra, né?
01:40 Speaker 3: Então, essas brincadeiras que a gente tem nas histórias tradicionais, né? Então, sei lá, o casal de irmãos que, de repente, a família não tem condição de cuidar e
01:50 Speaker 1: a mãe morre e aí o pai
01:52 Speaker 3: leva essas crianças para a floresta e aí elas deixam miolinhos de pão no caminho
01:59 Speaker 1: e...
02:01 Speaker 3: para tentar voltar e não conseguem voltar, encontram no meio da floresta uma casa de doces, ali tem uma bruxa, então, João e Maria. Então, essas coisas que estão no imaginário popular, que a gente depois, com a cultura escrita, foi fazendo com que isso virasse registro e história escrita, mas que está no nosso imaginário. Então, eu acho que a dimensão da palavra artista aqui é muito mais o sentido de criação.
02:31 Speaker 3: profissão tem a criação. Então a minha criação, a minha matéria é
02:35 Speaker 1: a palavra. Mas
02:36 Speaker 3: você pode dizer que tem também o artista da matemática, que a matéria são os números, é o mundo dos números. Então é isso, acho que parto por aí. Um interesse
02:47 Speaker 1: desde muito pequeno.
02:49 Speaker 3: Pelo que os outros diziam, principalmente os mais velhos, aqueles que guardavam e traziam experiências. Mas eu só fui tomar contato com isso mais velho. Eu não sabia que era isso que me interessava. Depois que você vai descobrindo. É verdade, desde criança eu tenho esse interesse. Eu gostava de ouvir. E só para... Eu estou me prolongando, mas uma coisa que é bonita, eu nasci nos anos 70.
03:11 Speaker 3: E naquela época, a gente criança, não participava como hoje. As crianças não ficavam entre os adultos. Então, os adultos ficavam num lugar e a gente ficava em outro lugar. Então, eu gostava muito de uma coisa que acontecia na minha casa, que era reunir a família toda na cozinha, principalmente numa cozinha bem grande, com uma mesa. E eu gostava de ficar embaixo da mesa, ouvindo o que eles estavam falando, meio que descobrindo segredos. E eu acho que isso também me ajudou a... O
03:36 Speaker 2: repertório. Ter repertório,
03:38 Speaker 3: é. E ter esse interesse.
03:40 Speaker 1: Que bom, que interessante. E você é o autor dos contos do Quintal. Como que você pensa que é a relação do brincar, contar e criar histórias?
03:59 Speaker 3: Muito bom, essa pergunta é excelente. Porque
04:02 Speaker 1: eu acho que é...
04:03 Speaker 3: É inseparável, né? Não tem separação entre uma coisa e outra. Porque a gente associa, a gente vai ficando adulto, ou mais velhos, né? Tipo vocês que estão numa fase já pra vida jovem, adulta, né? A gente associa brincar como uma coisa menos, menor, né? A gente vai ficando mais velho e vai entendendo que brincar é como se fosse uma coisa até perda de tempo. E menos valor. Menos valor, exatamente. Mas a brincadeira é o espaço em que a gente... eu vou falar uma coisa assim, que a gente desenvolve a nossa liberdade interior. É onde a gente começa a entender quem a gente é. É lá que a gente sabe que a gente gosta mais de mandar do que ser mandado.
04:46 Speaker 1: Tem gente que gosta de ser mandado, gosta de
04:47 Speaker 3: mandar. Estou brincando aqui. Mas é lá que a gente descobre que a gente tem medo das coisas ou que a gente tem uma coragem para uma coisa. E quando a gente não brinca, a gente não tem a possibilidade de descobrir quem a gente é.
04:58 Speaker 1: Então,
04:59 Speaker 3: a criação literária é um lugar em que a gente vai tomando contato com o que a gente tem de história dentro da gente. Então, por exemplo, o Conso do Quintal é uma coletânea na realidade. Ele foi publicado pela Editora Globo e são vários autores. Quem ilustra a minha história é a Mariana
05:17 Speaker 1: Massarani.
05:20 Speaker 3: Ela é uma ilustradora do Rio de Janeiro, uma ilustradora importante, premiada e tal. E eu não conhecia a Mariana. Então a gente tinha que conversar. Então havia uma brincadeira. E a minha história nasceu de uma imagem que eu tinha de infância. Eu já falei da infância várias vezes. A infância é um território muito saudável para mim, muito importante para mim. Que era da minha avó quando ela ficou mais velha.
05:44 Speaker 3: Ela faleceu com 87 anos, mas quando ela ficou mais velha, tinha uma coisa de vê-la sempre numa mesma posição no sofá. Ela ficava meio que no cantinho, numa coisa, ficava com a cabeça assim. E aí todo ano novo, que eu me lembro, assim, eu era criança quando ela faleceu, e eu lembro que de vê-la sempre, era ano novo, mas ela sentada na mesma posição. Eu falava, o que é novo? Se é a mesma coisa. Então a imagem do conto começou daí.
06:08 Speaker 1: O que é novo?
06:09 Speaker 3: Aí eu brinquei com a palavra novo, ovo. O ovo que vai nascer, né? Então o conto ele fala sobre isso, sobre uma criança que observa uma avó e
06:18 Speaker 1: chama uma
06:20 Speaker 3: história dentro de uma casa amarela em que todas as coisas são amarelas, né? Um pouco isso, amarelo do passado tempo, do envelhecimento e tal. Então tô brincando com as palavras, entende? Tem a ver com a brincadeira que permanece conosco.
06:35 Speaker 1: Você fundou a Casa Tombada, que é um lugar que une arte, educação e linguagem. Como é o dia a dia de um lugar que respira estudo e experimenta ao mesmo tempo? Uau! É um lugar
06:46 Speaker 3: bem intenso, como uma escola. Vocês estão na escola todos os dias, vocês estão na posição de estudante. É a mesma coisa, porque quando a pessoa está em estado de estudante, ela é igual. Sempre. Então, ela pode ser criança, pode ser jovem, pode ser adulto. Então, elas têm as mesmas demandas, né? Sim, um pouco é um lugar que a gente acolhe os desejos de conhecimento das pessoas, mas a gente busca lá na Casa Tombada, desde o Sorin, já vai fazer 11 anos esse ano,
07:16 Speaker 3: descobrir um modo mais criativo, mais inventivo e mais gostoso de estudar. Porque eu estudo quando a gente vai ficando mais velho, falo por isso porque eu estou agora terminando o pós-doutoramento agora em junho na Escola de Arte e Ciências Humanas da USP.
07:33 Speaker 1: Não
07:34 Speaker 3: sei, vai dando uma ideia
07:35 Speaker 1: de que a
07:37 Speaker 3: gente é melhor, sei lá, quando estuda. E não necessariamente,
07:42 Speaker 1: porque...
07:44 Speaker 3: O estudo é importante quando ele vai junto com a tua vida. Quando a tua vida está a serviço da sociedade também. Quando você percebe que você faz uma coisa que é útil para o mundo. Quando você sente que aquilo que você faz tem uma importância para a sua comunidade. Então a gente procura fazer isso na casa. Isso demanda muita coisa. Demanda escutar as pessoas de verdade. Não fazer de conta o que a gente está ouvindo. Demanda escutar como que elas conhecem. Como que elas são adultas já? Como elas não conhecem? Elas vêm aqui, elas vêm... cheia de saberes, né?
08:15 Speaker 3: Então, demanda a gente... Agora mesmo eu estava conversando com o professor de geografia, que eu não esqueci o nome. Javis, Mr. Javis. Pessoa incrível. E ele estava me contando desse método da minha papel, né? Que é sempre conhecer o conhecimento prévio, saber do conhecimento prévio de vocês e trazer, vamos dizer, o conhecimento estabelecido, né? E a partir daí descobrir hipóteses, modos de conhecer. Eu acho que a gente faz bastante isso lá na casa.
08:39 Speaker 2: Ai, que interessante, Juliano. E como que você acha que a narração de histórias, essa contação, pode ajudar os nossos jovens nesse mundo tão digital, nesse mundo tão acelerado que nós vivemos hoje?
08:56 Speaker 3: Olha, você já falou tudo, assim. É real, a gente está num mundo de notificação, né? Tanto que foi proibido o celular na escola, não à toa, né? Porque você veja, a nossa espécie, nossa espécie, humana, é uma espécie, tipo... Não somos jacarés nem samambaias, somos humanos. Poderíamos ser jacarés e samambaias, devem ser bem interessantes também, mas somos humanos. E a nossa espécie, ela é uma espécie da linguagem e ela é uma espécie que precisa de continuidade. A gente não vive sem continuidade, a gente não vive sem a história da continuidade das coisas. Vou dar um exemplo concreto. Você não consegue levantar pela manhã se você não saber o que você vai fazer no seu dia.
09:36 Speaker 1: Não dá.
09:37 Speaker 3: Tanto que quanto menos perspectiva de dia você tem, mais... tendência de você não querer fazer nada. Esse não fazer nada, ele tem dois caminhos. Um, porque eu estou cansado, preciso de espaço interno, descansar, um espaço ocioso, mas ele pode ser um espaço depressivo, um espaço em que eu não tenho mais vontade de fazer as coisas. Então, a vida digital, ela provocou, tanto que a gente tem vários estudos mostrando isso, essa tela infinita desse dedo que sobe, que a gente fica tentando achar que vai aparecer uma coisa na minha timeline, que vai me trazer uma resposta para a coisa que eu estou sentindo. Ela tira da gente a ideia de continuidade. É como se toda hora você fosse interrompido por uma coisa que é outra. Então você produz uma... Neurociência vai dizer isso, né? A gente produz muita dopamina, que
10:22 Speaker 1: é um
10:22 Speaker 3: hormônio perigoso, no sentido de que o corpo desenvolveu isso durante... muito tempo para ajudar a gente a ter prazer nas coisas e você vai meio que gastando a sua dopamina, posso chamar assim, você vai secando a sua fonte de dopamina e você vai fragmentando o teu dia. Vai cortando o teu dia. Então a sensação que dá é que você não fez nada. E a pior coisa para um corpo humano é ter a sensação que não fez nada. Porque é isso que é perder a continuidade. Você estava fazendo
10:52 Speaker 1: isso, fiz isso e concluí isso.
10:55 Speaker 3: Então a narração de histórias, ela devolve naquele tempo, enquanto você está ouvindo uma história, o tempo de uma continuidade.
11:03 Speaker 1: Tem começo, meio e fim. Eu
11:05 Speaker 3: vivo uma experiência completa. A princípio, a gente diz assim, não aqui na escola, mas a gente costuma dizer muito isso. Ah, os jovens não gostam de histórias, as crianças sim gostam, os meninos mais velhos não estão nem aí. Eu discordo completamente, porque se você está diante de alguém que está contando verdadeiramente com a história, ou seja, está envolvido com a história, curte o que está falando e tal, vai ter atenção, porque todo mundo busca uma coisa que faça com que eu volte para mim de maneira contínua. Conexe-se, né? Exatamente, essa é a sua palavra. Então a história não é para você se conectar com o narrador, é para você se conectar com você mesmo. Com o seu mundo de história, suas memórias, o seu imaginário.
11:47 Speaker 1: Nossa!
11:48 Speaker 2: As suas vivências. Exato.
11:51 Speaker 3: E a rede social, não que ela seja só um problema, porque ela te dá acesso a muitas coisas que nós não tínhamos. Mas quando você fica nessa coisa infinita, você vai vivendo essas notificações. Você vive uma vida de notificação. vida de história,
12:07 Speaker 2: diferente. Como é importante, né? É muito
12:09 Speaker 3: importante. Ela é fundamental pra gente.
12:13 Speaker 1: E nós, aqui na escola, nós escrevemos muito, nós gostamos de escrever. E qual que é o segredo pra fazer uma ótima narração de uma história? Contar, conseguir expressar o que a gente quer nos textos?
12:29 Speaker 3: Olha, a hora que eu descobri esse segredo, eu venho contar. Porque, como você falou, é um segredo. Mas todo segredo tem algumas pistas, né? Você vai pensando assim. Eu não sei o segredo. Não sei porque acho que é um segredo, né? Mas tem umas pistas. Então, as pistas principais. Primeira coisa é falar sobre coisas que a gente gosta de falar. Então, por exemplo, acho que vocês devem ter preferências. Não sei,
12:57 Speaker 3: o que vocês gostam? Que assunto hoje é o assunto de vocês? Fala, eu fico lá e toda hora que eu tenho tempo livre eu vou para aquilo. O que você pode dizer, por exemplo?
13:06 Speaker 1: Eu gosto de futebol. Pronto. Futebol é um tema incrível.
13:11 Speaker 3: Futebol, e eu não sei por que é tão pouco explorado hoje na literatura. Porque futebol é onde acontecem as coisas mais incríveis. Eu tenho um filho de 11 anos, eu adoro futebol. E tal, o tempo inteiro vendo coisas de futebol. E no futebol acontecem as coisas, né? A gente tinha grandes cronistas de futebol. Nelson Rodrigues foi um cara que escreveu muito sobre futebol. Sobre as coisas da arbitragem, sobre coisas... Então, às vezes você pode pegar um acontecimento do futebol, mas alguma coisa que aconteceu que é fora da curva, assim. Que é uma coisa... pista é isso. O que aconteceu ali que não é tão comum que acontece num jogo de futebol? Aí você começa
13:47 Speaker 1: a imaginar o que seria se
13:50 Speaker 3: alguma coisa acontecesse ali naquele momento que aquilo saiu fora da curva, que não foi igual.
13:57 Speaker 1: Você teve uma ideia? Eu tive uma ideia. Eu pensei no Zidane dando a cabeça. O Zidane dando a cabeçada no materassi na final da Copa do Mundo. Não é normal, né? Não
14:10 Speaker 3: é normal. E aí você pode inventar uma história a partir daí, que eles, por exemplo, ficaram um mês dormindo os dois, tiveram que ir pro hospital e os dois ficaram dormindo num lugar e eles começaram a se conversar por sonho. Enfim, aí começa uma história, entende? Você pode, a partir de um acontecimento, de uma coisa que te interessa, fazer criar uma fábula que faz a gente pensar sobre o mundo que a gente vive. vive. Principalmente ir fazendo perguntas como essa que você acabou de fazer. O que não é normal? Foi um incidente ali, mas o que a gente poderia pensar? Entende? Acho que isso é se fazer pergunta, nasce um texto. Então esse é um segredo. Primeiro estar perto, você não falou o que te interessa. Gosto de esportes também. Também de esportes. Bom, o esporte é um campo vastíssimo pra escrita. Eu acho que nós podíamos associar mais isso à linguagem. Eu sempre penso assim, por que os programas de literatura não são tão legais como os programas de futebol, sabe? Programas de comentarista de futebol é super interessante, né? E os de literatura às vezes são chatos, né? Um monte de gente meio que falando de coisas que ninguém entende e tal. Então a gente podia falar sobre... Sobre como falamos de futebol, com o jeito que está escrevendo. De um jeito mais simples, talvez. Então, acho que é isso. Os segredos são, primeiro, você estar perto das pistas para esse segredo. Dos temas que te interessam. Segundo, o que eu acho que é
15:35 Speaker 1: importantíssimo, é
15:37 Speaker 3: você não perder a conexão com você.
15:41 Speaker 1: O que você sente.
15:43 Speaker 3: no mundo que você está, né? Quais são as coisas que te passam? Quais são
15:47 Speaker 1: as suas perguntas para o mundo?
15:50 Speaker 3: Então, acho que são essas uma das pistas que eu acho que eu posso falar aqui.
15:56 Speaker 1: E qual a sensação de ver um livro seu como da área da linguagem e tecnologia sendo usado para ensinar os outros? Ah, é muito legal, né?
16:08 Speaker 3: É isso que eu estava falando anteriormente. Parece que o que a gente faz tem sentido no mundo, né?
16:13 Speaker 1: É uma narração.
16:14 Speaker 3: Nesse sentido, é como se o que eu estou fazendo tivesse uma utilidade, né? E eu acho que a nossa espécie humana precisa se sentir útil. Uma pessoa que não se sente útil, ela vai se sentindo
16:25 Speaker 1: sem sentido no mundo, né?
16:27 Speaker 3: Então, a coisa mais legal é saber que eu estou contribuindo com esse mundo, que o que eu estou fazendo ajuda outras pessoas também a... a prestar atenção na linguagem, que é um campo que eu me dedico. Eu acho que a gente tem vários estudiosos, e eu gosto de falar isso para jovens, porque às vezes a gente fala, ah, mas isso é papo de adulto, eu não acho, acho que a gente tem que falar mais para os adolescentes, os jovens, sobre essas coisas. Existem estudiosos que ajudaram a gente a pensar nossa psique, nosso modo de estar no mundo, por exemplo, um foi o Lacan, e o Lacan falava uma coisa muito legal, ele falava assim, tudo de uma pessoa humana é a linguagem,
17:03 Speaker 1: tudo.
17:04 Speaker 3: Tudo está na linguagem. Então se você fala o tempo inteiro que você está
17:10 Speaker 1: mal, não é que...
17:12 Speaker 3: um feitiço de repente você ficar mal. Não, é porque você vai construindo o mundo ao redor, todas as suas ações vão ficando ao redor porque você está mal. Então, se você prestar atenção, suas frases todas são construídas com esse tom mal no meio. Então, se a gente vai mexendo na linguagem, se a gente vai mudando a linguagem,
17:30 Speaker 1: o modo de dizer,
17:31 Speaker 3: a gente vai mudando o mundo também, a gente vai mudando a gente e o mundo. E acho que a literatura faz isso. Então, ver, por exemplo, livros mais técnicos,
17:40 Speaker 1: ver as crianças...
17:42 Speaker 3: os jovens tendo a possibilidade de pensar um outro jeito a linguagem, um jeito mais interessante, mais gostoso, vai significar um mundo mais legal, um mundo mais gostoso, um mundo melhor para todo mundo. Então acho que a minha intenção e a minha atenção está nisso e a minha alegria ao ver um livro publicado está sempre nessa direção, de ver que eu estou contribuindo com o mundo de algum modo.
18:06 Speaker 2: A linguagem é o fio condutor, né? Que nos conecta conosco, né? E com o mundo. Bem interessante, com tudo na
18:15 Speaker 3: vida. Tem que pensar uma aula, né? O que a gente tá fazendo aqui é linguagem. Vocês estão me perguntando, preparando perguntas. E é um trabalhão, não é isso? Não é trabalhão?
18:24 Speaker 1: É, é. Não deixa de ser. E sobre a história Pedras no Caminho?
18:31 Speaker 3: Olha, essa história é um cont tradicional que diz mais ou menos assim. Há muitos e muitos anos,
18:37 Speaker 1: existiu um rei.
18:38 Speaker 3: E o rei tentava dar lição de moral aos
18:41 Speaker 1: seus súditos de todos modos.
18:43 Speaker 3: Mas as pessoas não
18:44 Speaker 1: escutavam o rei. Então um dia...
18:47 Speaker 3: Ele parou no meio da estrada e pensou assim, porque sim, porque ali só existia uma estrada que ligava o reino à cidade. Ele parou na estrada e pensou assim, o que pode acontecer de bom a um país em que as pessoas só reclamam, reclamam, reclamam e não fazem nada para mudar a situação? Oh céus, o que fazer? Ele ficou ali pensando e teve
19:05 Speaker 1: uma ideia.
19:06 Speaker 3: Ele pensou, por que não colocar uma pedra no caminho? Claro, porque aí teriam que passar por ali e teriam que fazer alguma coisa. Passado algum tempo, ele se escondeu. Veio por ali
19:16 Speaker 1: um soldado altivo, imponente,
19:18 Speaker 3: com muitas condecorações. Mostra, soldado. Ele não viu. Eu estava olhando muito para cima, né? Só que olha muito para cima. Não viu a pedra e tropeçou.
19:27 Speaker 1: Mas levantou assim, revolta. Quem foi o idiota que colocou essa pedra no meu caminho? Ai, meu Deus do céu. Que eu vou te matar. Ele falou, eu poderia tirar essa pedra do caminho? Mas se eu cair, que caiu todos. E foi embora.
19:42 Speaker 3: Deixou a pedra no caminho e foi embora.
19:44 Speaker 1: O rei ficou observando lá.
19:47 Speaker 3: Aí passou mais algum tempo, foi ali por ali, um
19:49 Speaker 1: matuto assim, né? Estava vindo com a sua
19:52 Speaker 3: carroça, seu dia de trabalho, aquela coisa.
19:56 Speaker 1: Ai, mataram meu carneiro, ai, cortaram as quatro pães. Uai, é estranha. Ai, meu Deus do céu, o que eu vou fazer com isso aí? Eu não vou conseguir fazer daí, não. Ué, que preguiça, meu Deus do céu. Acho que eu vou voltar, viu?
20:14 Speaker 3: Ele voltou com a carroça e pensou no caminho.
20:17 Speaker 1: Eu ia até poder tirar essa pedra aí, mas vai me
20:19 Speaker 3: dar uma câncer, vou voltar mesmo.
20:21 Speaker 1: E voltou. E o rei ficou observando.
20:24 Speaker 3: Bom, por ali passaram todos os eiros da cidade.
20:27 Speaker 1: Eiros?
20:28 Speaker 3: Leiteiro, padeiro, pamonheiro, açougueiro, todo mundo passou por ali e ninguém tirou a pedra. Já estava no final da tarde, o rei já estava assim desolado. Ninguém ia tirar, né? Mas ali eu vi um... Era a Clara. A Clara era a filha do moleiro. E ela tinha três filhos. Ela tinha
20:50 Speaker 1: trabalhado. Porque eu tava cansada pra caramba.
20:53 Speaker 3: Parece uma pessoa cansada indo pra casa. Mas eu tinha feito tudo de si naquele dia. Aí tava meio escuro. Ela viu a pedra.
21:02 Speaker 1: Ai, meu Deus do céu.
21:04 Speaker 3: Mais uma pedra no meu caminho. Mas também tá escurecendo, né? Meu Deus, o que eu faço com essa pedra aqui? O problema é que escurecendo. Vai que vem alguém por aqui e não vê essa pedra e se machuca. Não custa nada, né? Já fiz tanta coisa hoje também.
21:20 Speaker 1: E aí ela foi empurrada aqui, empurrada ali. Tirou a pedra do caminho.
21:26 Speaker 3: O reino se continha ali no esconderijo dele, né? Mas ela percebeu que estava meio escuro. Ela viu que embaixo da pedra tinha uma caixa.
21:33 Speaker 1: E tinha uma coisa escrita, assim. Esta caixa pertence a quem retirar a pedra. Ah, fui eu. Meu Deus, é pra mim?
21:42 Speaker 3: Aí ela foi até a caixa e
21:43 Speaker 1: abriu a caixa. O
21:50 Speaker 3: que tinha ali dentro?
21:54 Speaker 1: Ouro.
21:55 Speaker 3: Mas era montoeira. Aí ela fechou a caixa e foi embora. Foi meu, né? Vou levar. Levou com ela. E aí todo mundo ficou numa coisa, né? Ela, claro, fez bem pra família e ficaram numa boa e tal. Mas a notícia, não sei se vocês sabem, cidade pequena, às vezes as notícias,
22:11 Speaker 1: assim, vai num tirinho de espinhada. Aí o povo entrou em polvorosa. Você viu? Deve ter um monte de pedra, vamos tirar, né? Pra ver se acham uma caixinha. E foram pro caminho. Mas
22:20 Speaker 3: era aquela montoeira de gente levantando as pedras pra ver se achavam alguma coisa. Obviamente não encontraram nada. mas que eram
22:25 Speaker 1: revoltados, mas numa revolta, se juntaram e foram até o castelo do rei, ouro para todos, ouro, já se viu, só alguns terem ouro, e aí o rei recebeu todos
22:36 Speaker 3: eles ali, e foi logo dizendo, meus amigos,
22:40 Speaker 1: não adianta só ficar reclamando, reclamando,
22:42 Speaker 3: reclamando, é preciso fazer alguma coisa, e tem mais,
22:45 Speaker 1: a decepção é o preço da preguiça,
22:48 Speaker 3: olha essa moça clarinha,
22:50 Speaker 1: e olha,
22:50 Speaker 3: agora eu preciso me retirar,
22:52 Speaker 1: diz que o rei entrou, E o povo, até hoje,
22:57 Speaker 3: a tudo que aparece, há alguma coisa a fazer. A pedra no caminho.
23:03 Speaker 1: É isso. Muito legal. Muito bom.
23:07 Speaker 2: Obrigada. Obrigado. Mas, Juliana, acho que o tempo voou aqui na nossa conversa. Acho que a gente ficaria horas aqui conversando com você. Foi muito bom ter você conosco e compartilhar a sua paixão, o seu amor pela palavra com esses jovens maravilhosos que estão nesse processo de desenvolvimento da escrita. Essas dicas para esse segredo, essas pistas para o segredo dessa escrita. E escrever sobre o que a gente gosta. Essa escrita tem a nossa... Quem nós somos está nessa escrita, né? Quem vai ler, vai nos ler, né? Vai ler o nosso mundo, né? Nossa perspectiva de mundo. Mas pra gente encerrar, você contaria uma história pra gente?
23:51 Speaker 1: Vou contar uma brevíssima história. Posso
23:54 Speaker 3: contar uma brevíssima? É uma história assim, que tá num livro chamado Mulheres que Correm com os Lobos, da Clarissa Pincolas Tess, que é uma psicanalista mexicana que vive nos Estados Unidos, e ela contou mais ou menos assim, uma vez eu sonhei... com alguém dando tapinhas nos meus pés. Aí eu olhei para baixo e
24:14 Speaker 1: vi que estava
24:15 Speaker 3: sobre os ombros de uma velha. Aí eu vi aquilo e falei assim, ei, suba nos meus ombros, já que eu sou jovem e a senhora é velha. Aí ela olhou bem nos meus olhos e
24:24 Speaker 1: disse, não,
24:27 Speaker 3: é assim que deve ser. Aí quando eu olhei de novo,
24:30 Speaker 1: a velha estava
24:32 Speaker 3: sobre os ombros de uma outra velha. Uma velha que usava manto, outra que usava farrapos, outra com a nudez da sua época. Eu entendi o que disse a velha dos sonhos. A energia para contar a história vem daqueles que já se foram. Nós estamos numa altíssima coluna de seres humanos interligados através do tempo e do espaço. Muito
24:56 Speaker 2: obrigada, Juliana. Muito obrigada, Gabi, Isa. Participarem conosco hoje no nosso podcast. Um abraço a todos.