Yalla

No sexto episódio de YALLA, conversamos com Margarida David Cardoso, jornalista do Fumaça e editora da reportagem "Indústria da Ajuda na Palestina”, uma investigação de Rafaela Cortez, que se foca em como era a sociedade civil palestiniana antes dos Acordos de Oslo, o que significa o processo de "ONGização" na Palestina, a quem realmente serve a ajuda internacional, e se esta pode estar a perpetuar a ocupação, em vez de a combater.
A investigação incluiu mais de 40 entrevistas, 45 horas de gravação e quatro viagens ao Líbano e à Palestina entre 2022 e 2024. Nesta conversa, falamos sobre as suas principais conclusões, os desafios do trabalho no terreno e as contradições do setor da ajuda humanitária na Palestina.
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📺 YALLA é uma série de conversas sobre a Palestina. É sobre romper o silêncio, desafiar narrativas e manter viva a resistência. Porque é preciso falar sempre, independentemente do que o mundo escolhe ouvir.

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Margarida David Cardoso | The Aid Industry: How NGOs and Governments Sustain the Occupation
In the sixth episode of YALLA, we speak with Margarida David Cardoso, a journalist from Fumaça, responsible for the report "Aid Industry in Palestine" which focuses on what Palestinian civil society looked like before the Oslo Agreements, what the process of "NGOzation" means in Palestine, who is international aid really serving, and whether it could be perpetuating the occupation, instead of fighting it.
This investigation included more than 40 interviews, 45 hours of recording and four trips to Lebanon and Palestine between 2022 and 2024. In this conversation, we talk about its main conclusions, the challenges of work on the front line, and the contradictions of the humanitarian aid sector in Palestine.
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📺 YALLA is a conversation series about Palestine. It’s about breaking the silence, challenging dominant narratives, and keeping resistance alive. Because we must keep speaking, no matter what the world chooses to hear.

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🎬 Créditos/ Credits:
  • Host: Carolina Pereira
  • Produção / Production: Bárbara Marques & Carolina Pereira, com apoio de / supported by Dima Abu Sbeitan & Balolas Carvalho
  • Gravação & Edição / Recording & Editing: João Esteves
  • Arte e Cenário / Art and Set: Dima Abu Sbeitan & Montanha de Azeitonas, com / with Patrícia Nunes & Fernando Martins
  • Fotografia / Photography: Patrícia Nunes
  • Branding: Catarina Barbosa
  • Design: Tiago Zorro
  • Tradução / Translation: Nuno Sousa Oliveira
  • Comunicação / Communication: Joana Guerra Tadeu
  • Media Partner: Comunidade Cultura e Arte
  • Estúdio / Studio: Colorama
  • Genérico "Yalla" gravado em Gaza / "Yalla" song recorded in Gaza: 
    • Voz / Singing: Shahd Attia
    • Guitarra / Guitar: Hosam Hassona
    • Bateria / Drums: Islam Mohsen
    • Oud: Mohammed Al-Ostaz
    • Ritmo / Rhythm: Samer Al-Nawajha
    • Distribuição Musical / Music Distribution: Naseem Rimawi

What is Yalla?

Yalla é um podcast de conversas sobre a Palestina—uma luta contínua contra um sistema colonial que persiste há décadas. É sobre romper o silêncio, desafiar narrativas e manter viva a resistência. Porque é preciso falar sempre, independentemente do que o mundo escolhe ouvir.
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Yalla is a podcast that delves into the Palestinian struggle, examining the enduring resistance against a colonial system that has persisted for decades. Our mission is to challenge dominant narratives, amplify silenced voices, and sustain the spirit of resistance. Speaking out is imperative, regardless of the world's attention.

Falamos com a Margarida,
jornalista do Fumaça,

que está a editar uma reportagem
sobre a indústria da ajuda na Palestina.

Desde os Acordos de Oslo em 1993,

mais de 51 mil milhões de euros

chegaram à Palestina
para ajuda ao desenvolvimento.

O setor das ONG expandiu-se,
milhares de organizações surgiram,

milhões foram distribuídos.

Mas 30 anos depois,
o que mudou realmente?

A investigação procura
explorar questões fundamentais:

como era a sociedade civil palestiniana

antes dos Acordos de Oslo,
o que significou o processo de...

- ONGização.
- Obrigada.

- Vais dizer sempre tu essa palavra.
- Combinado.

A quem realmente serve
a ajuda internacional

e se esta ajuda

pode estar a perpetuar a ocupação
em vez de a combater.

A investigação já está na fase final,
após mais de 40 entrevistas,

45 horas de gravação e quatro viagens
ao Líbano e à Palestina entre 2022 e 2024.

Vamos falar sobre
as principais conclusões da investigação,

os desafios no terreno e as contradições
da ajuda humanitária na Palestina.

Obrigada, sei que querias
que tivesse sido o Rafael a vir.

- Qualquer pessoa menos eu.
- Sim.

A história da indústria da ajuda
não começa nos Acordos de Oslo,

mas antes, em que...

A resistência da Palestina estava

muito organizada por sindicatos,
cooperativas, redes de voluntariado,

organizações muito locais.

Como era essa sociedade civil
antes dos anos 90?

Obrigada pelo convite.

Este trabalho é muito feito a partir de...

Do trabalho de outros investigadores,
ativistas e historiadores.

É muito importante o trabalho
da historiadora Anne Irfan,

que, durante vários anos,
foi perceber a história

do povo palestiniano,

cruzando com o sistema

de refugiados internacional,
para proteger refugiados internacionais.

Também o trabalho de uma ativista,
fundadora do Centro de Investigação BADIL

e do movimento do BDS,
do boicote de investimentos e sanções,

que se chamava Ingrid Jaradat Gassner.

Ela é uma pessoa europeia,
que vai para a Palestina

antes da primeira intifada,
por volta de 1989, 1990,

e assiste a toda essa transformação

a partir de dentro das organizações.
- E ela ficou lá?

Viveu 30 anos na Palestina,
fazendo parte destes movimentos,

da fundação do BDS
e cofundação do BADIL

que é mesmo importante.

E a maneira como elas contam
esta história é:

na sequência da ocupação em 1948,
há aqui vários marcos importantes.

Em 1964 é fundada a OLP,

a Organização
para a Libertação da Palestina,

que junta vários movimentos
políticos palestinianos,

movimentos políticos com perceções

e maneiras de atuar muito diferentes.

Em 1967,
há a chamada Guerra dos Seis Dias,

que é marcada pela derrota árabe
contra o estado israelita,

e para muitos palestinianos,
o abandono de vários países

árabes à causa palestiniana,
a desistência de...

Permitir que a ocupação israelita
se perpetue e seja feito ainda mais,

principalmente na Cisjordânia.

Para vários autores,
é em 1967 que acontece um acordar

da consciência palestiniana
de que a libertação será feita por nós,

de que não é com os países árabes
que conseguiremos

fazer essa libertação
e que depende de nós.

O que tanto a Anne como a Ingrid contam
é que nos anos 70 e 80 há

há uma proliferação
de comités de mulheres,

organizações de voluntários, sindicatos,

também organizações de estudantes,
que se tornam muito importantes

na sociedade civil palestiniana
e muitas são organizações quase informais.

Na verdade,
para muitas pessoas árabes é algo...

Usamos termos ocidentais
para caracterizar estas organizações,

porque eram movimentos
muito inorgânicos e politizados.

É a grande diferença
quando estas organizações se transformam

em ONG e há aqui uma despolitização.

A maior parte destas organizações,

locais e muitas delas orgânicas,

algumas são profundamente ligadas à OLP,

esta organização de partidos,
porque em 67, vários destes partidos

são ilegalizados perante a lei israelita,
não podem atuar.

A maneira como o braço social
destes partidos acaba por ter muitas

dessas organizações que...

- Não podiam ser ilegalizadas.
- Exatamente.

Fazem muito do trabalho
que os partidos queriam fazer,

não só um trabalho de prestação de ajuda
ou de cuidados sociais

que eram necessários à população,
na ausência de um estado formal,

prestavam muitos desses serviços,

e também trabalho político

de proliferação
do sentimento nacionalista.

Muito do trabalho de mobilização
era feito por organizações.

- O Estado é algo muito ocidental.
- Sim.

Havia estas organizações
como braço social dos partidos

que estavam ilegalizados,
é muito importante para formar

uma geração de líderes,
que depois comanda a primeira intifada,

profundamente orgânica e caracterizada

por várias pessoas
como o verdadeiro movimento social de base

que não é organizado
por instituições formais

nem monopolizado por partidos políticos,

é algo das pessoas,
das ruas, das pedras, das barricadas,

para fazer mudança política a sério.

Por isso, até aos anos 90,
até à institucionalização

dos Acordos do Oslo,
é esta sociedade civil que se caracteriza,

que tem coisas interessantes,

estima-se que havia cerca
de 1500 organizações locais

na Palestina,

que são bastante à época,
e que garantiam, por exemplo,

30% das escolas,
60% dos serviços de saúde

e quase todas as agências
de desenvolvimento agrícola

da Palestina.

O desenvolvimento agrícola
sempre foi algo importante

e eram estas organizações
que alavancavam o setor.

Era algo muito transversal e importante

na sociedade palestiniana
e quase a substituta ao Estado.

Foi a primeira intifada
e a exposição mediática

que mostrou a Palestina ao Ocidente

e foi aí que essas
organizações internacionais

foram para a Palestina.

Ou seja,
talvez deixou de ser as locais

e houve essa onda massiva
de várias ONG a irem para lá.

A Ingrid conta muito essa história,

que assistiu
com os Acordos de Oslo em 93,

viu esta explosão,
esta descoberta mediática da Palestina

e as grandes organizações internacionais

e financiadores
da ajuda humanitária descobrirem...

A expressão utilizada é mesmo
descobrirem que os palestinianos existem,

que são um assunto.

E isso significa começar a escrever,
principalmente a partir desta altura,

começar a escrever
a Palestina como um tema

dentro da organização
da ação humanitária.

Organizações internacionais
começam a abrir escritórios em Ramala,

a capital administrativa da Cisjordânia.

Começam-se a institucionalizar mais.

Trabalha-se na Palestina,
é um sítio com organizações de trabalho.

A par destas organizações locais,
já havia organizações internacionais

de caridade e religiosas,
os Quakers, por exemplo, do Reino Unido.

Mas é a partir dos Acordos de Oslo
em que há da parte da Palestina,

esta institucionalização,
de que há um proto-estado

com a criação da Autoridade Palestiniana,
que é suposto ser temporária

nos anos a seguir aos Acordos de Oslo,

há aqui condições para que...
- Uma situação supostamente temporária.

Os acordos de Oslo definem

que a Autoridade Palestiniana
devia ser uma instituição temporária

até à estabilização.
- Da organização.

Sim, até à criação
de um governo-estado palestiniano.

Trinta anos após os Acordos de Oslo,
não saímos desta solução temporária.

Mas os Acordos de Oslo
criam uma base institucional,

ocidental, se quisermos,

para que várias organizações definam

que estes territórios ocupados
da Palestina existem.

São uma unidade estatística,
podemos pôr nos relatórios,

que têm muitas pessoas
nestes territórios da Palestina

e podemos trabalhar lá.

E é um território em paz,

definida pelo acordo de paz de Oslo.

Há esta proliferação das ONG,
há transformação brutal

da cidade de Ramala,
como o centro das ONG.

Abrem escritórios,
com todas as consequências que têm

sempre que grandes
ONG internacionais

e trabalhadores ditos patriados

vão para estes sítios,
têm muito mais poder de compra

podem pagar rendas mais altas,
levam os carros das organizações,

que procuram

comodidades ocidentais.

Nota-se que Ramala é uma cidade alterada

pelas empresas,

pelas organizações internacionais.

É a partir dos Acordos de Oslo
que este movimento começa,

de forma intensa,

acabando por levar
as organizações locais a reboque,

porque quando se instala este sistema...

Portanto, em vez de ser um...

Existir, por exemplo,
um reforço das organizações locais...

No fundo...

Permitires que fossem
as pessoas locais e as organizações,

embora não fosse da mesma forma
que a organização ocidental,

estavam organizadas,
mobilizadas e politizadas,

em vez de existir reforço,
foi uma coisa externa.

Quando poderia ser,
por exemplo, um investimento em...

Se já existem sindicatos, cooperativas,

grupos de estudantes e outros grupos,

podíamos apoiar diretamente
os próprios palestinianos,

que já se estão a organizar...

- Sim.
- E achas que é...

Não sei se ias dizer outra coisa,
ia-te perguntar se é por também...

Isto que chamas de...

Que têm chamado a isto

um posicionamento
de indústria da ajuda

e o porquê desse termo.

Não sei se ias dizer
outra coisa antes.

Estas organizações
não trabalham assim de origem.

A forma de trabalho é

abrir escritórios locais,

parcerias locais,
mas trazer muitos trabalhadores externos

para implementar
a sua agenda de financiamento,

que pode ter

mais ou menos envolvimento local,
mas não deixa de ser uma agenda definida,

principalmente em escritórios sediados
na Europa ou nos EUA.

É uma discussão na ação humanitária,
mas continua a ser isso.

A questão de usarmos
a expressão indústria da ajuda

é um posicionamento político

e resulta de uma análise
que tentamos construir na série,

que é demonstração.

Usamos a Palestina
como um estudo de caso,

mas de como...

A assistência, quer a emergência,
ou o que se chama desenvolvimento,

tornou-se uma indústria consolidada,

que há grandes organizações

que são financiadas por agências
com a sua própria agenda,

que trabalham em projetos e financiam
aquilo que podes fazer no terreno.

A tua ação na Palestina,
em Ramala, ou outro sítio,

é condicionada
pelas linhas de financiamento,

que são super específicas.

Vais fazer um projeto
e tens que candidatar

a um projeto específico
que não é libertar a Palestina.

Os projetos são absolutamente específicos.

- E são...
- E...

São projetos medíveis,
mensuráveis e objetivos,

tens de chegar ao fim do projeto,

ao fim de uns meses,
um ano ou três, e dizer:

"Eu consegui fazer isto."

- E isso não é compaginável com...
- E pode não ser...

... o que o povo quer, na verdade.

Acho que essa é...

Acho que essa é a grande questão,
quem é que define a agenda,

quem é que define o que se faz,
e como é que essa agenda incorpora

a vontade dos financiadores
ou a vontade das pessoas.

Mas a questão de ser uma indústria...

O motivo porque falamos
em indústria da ajuda,

é precisamente esse...

Essa institucionalização
e burocratização do trabalho.

São postos de trabalho de pessoas,

são organizações que funcionam

quase como empresas,
sem fins lucrativos,

mas a sua organização
é profundamente empresarial

na maneira como funciona.

Não é uma coisa...

Não tem o lado voluntário do trabalho,
que tem coisas muito interessantes,

não há uma lógica corporativa,

não estás a fazer aquilo para que tenhas
de justificar o trabalho a financiadores.

É muito precário,
há um monte de questões.

O motivo que falamos em indústria,
é precisamente essa institucionalização

e burocratização daquilo que era
uma resistência e movimentos sociais.

E quando falamos da palavra difícil,
de ONGização ou de...

É também usada pela Ingrid
para falar do que acontece

a seguir aos Acordos de Oslo,
que é esta institucionalização,

burocratização de movimentos sociais
em organizações.

Em vez de líder comunitário,
passas a ser diretor de uma ONG,

com as consequências que isso tem,
os teus objetivos de...

De movimento social, o teu propósito social

passa a ser objetivo
de um programa.

Tens de servir a ONG
e não diretamente as pessoas.

- Sim.
- E também...

É o que estavas a dizer,
a Palestina é como...

É um estudo de caso.

Vemos isso em todo o lado.

Sei lá, por exemplo...

Portugal e a Europa fazem isso com...

Com os países que foram colonizados,

como a Guiné.

Por exemplo, tenho alguns amigos

que participaram
num ou noutro programa,

também a indústria faz com que o dinheiro...

Circule entre...

O dinheiro europeu continua
a circular apenas entre europeus.

Porque...

Há aqui este dinheiro que conseguimos

alocar a este projeto,
que parece que estamos a...

A dar para ajudar,
por exemplo, na Guiné ou Palestina,

ou noutros países.

E serve para pagar,
muitas vezes, a pessoas

brancas que vão lá ensinar
determinada coisa.

Por exemplo,
falar sobre diversidade.

E é uma coisa que... sim.

Nada tem que ver com a pessoa
que lá vai, na verdade.

Tem que ver com o sistema
por detrás daquilo.

Mas os jornalistas lá
continuam a não ter Internet,

chove-lhes no escritório
e não têm acesso...

Nem sequer sabem se conseguem
ter comida ao final do mês.

Ou seja...

Mantém-se o dinheiro
a circular entre os mesmos e acaba por...

E são milhões, não é?

Sempre coisas super bem pagas,
na verdade, quando vais nestas

viagens de terreno
e fazer estas coisas

e o dinheiro continua só a circular

dentro dos mesmos,
que muitas vezes são

os que já exploraram antes

e que continuam a explorar
de diferentes maneiras.

Sim, e essa...

Há essa projetização,
tudo se transforma num projeto,

como é que divides...

As pessoas palestinianas
querem mais independência

da economia israelita.

Tudo isto é transformado
em microprojetos

ou organizações que tentam,

nos seus microprojetos,
responder a essa questão.

Mas, muitas vezes,
vão ser coisas muito...

minúsculas.

Muito pequeninas,
os projetos são limitados,

têm limitações de orçamento
e têm limitações de ambição.

Um projeto ambicioso
requer mudança estrutural,

vai ser difícil justificar
a um financiador que é viável,

num conceito
muito ocidental e economicista.

Podes dizer: "Este dinheiro não foi

para organizar 30 workshops,
foi para uma ação direta."

Uma grande ação direta,
em vez de 30 workshops.

É uma questão que foi visível...

Uma pessoa palestiniana
com quem falamos

trabalhou numa organização internacional
durante a Primavera Árabe.

Não havia uma linha de financiamento
para organizar protestos,

ou movimentos sociais radicais
durante a Primavera Árabe.

Era uma altura...

Há sempre estes chavões
das organizações

como "diversidade",
"igualdade de género".

Há uns anos
em que estas são as principais ideias

para as quais há financiamento.

Nessa altura, havia muitas coisas

sobre boa governança.

E da parte das organizações locais,

embora sejam vistas
com um olhar paternalista,

sabe-se o que está a acontecer,
conhecem a indústria,

conhecem estes mecanismos,
percebem como os podem usar,

há muitas vezes apropriação
por parte das comunidades locais,

"É boa governança que querem?
Vamos desenhar um projeto."

O projeto vai mencionar isso,

mas, na verdade,

o intuito é manter
um grupo comunitário,

que nas horas vagas
vai organizar manifestações.

Há alguém que vive em Lisboa
e que trabalhou durante muitos anos

em Gaza e na Cisjordânia,
chama-se Annelien Groten,

fala desta questão.

O paternalismo ocidental
perante as organizações locais

também se aplica às pessoas
beneficiárias da ajuda.

As pessoas sabem
como as organizações funcionam,

que há um inquérito
a perguntar o que achaste...

Sabem que...

Uma pessoa em Gaza beneficiária
de um programa de alimentação

sabe que não pode dizer
à organização seguinte

que já beneficiou do programa,
senão não vai ter direito.

As pessoas sabem disso e usam...

Safam-se, não é?

Jogam e safam-se.

Sabem que se não
conseguirem ter aquela ajuda,

se forem sinceras,
não alimentam a sua família.

As organizações
têm um lado muito ingénuo

na maneira como olham
para as populações locais

e não os incorporam...

Fazem-no mais,

mas ainda continua este...

Este olhar de que as pessoas
que são beneficiárias da ajuda

deviam ser mais ativas
naquilo que lhes é garantido, não é?

Essa sensação de que o dinheiro

é desperdiçado, ou de que é mal-usado,

é das maiores constantes
da ajuda humanitária,

pelos beneficiários,

de sentir que as coisas
não deviam funcionar assim,

nunca houve uma mudança radical.

Para o muito dinheiro que é.

Acho que isso até define
um bocadinho

a imagem externa das coisas.

"Já se pôs ali tanto dinheiro
e aquilo ainda está assim."

"Parece que se põe imenso dinheiro,

e aquilo não desenvolve."

Isso era uma das coisas que é...

Muitos financiadores e organizações

impõem um certo tipo de...

linguagem e conceitos

de ajuda humanitária

que esvaziam bastante
o discurso político, ou seja,

de repente...

Transformam resistência
em "desenvolvimento,"

coisas assim do género,

construção das capacidades,
vamos capacitar as pessoas...

Ou vamos... E...

De que forma é que...

É que também... Tipo...

Que impacto tem a nível de...

A não politização do discurso

e não ir de encontro

à libertação,

que é de facto o que um povo quer.

Que estas narrativas continuam
a justificar o trabalho em si,

é sempre um desenvolvimento
que não sabem para onde,

resistência não,
libertação também não se fala,

descolonização ainda menos.

Mas de que forma é que isto impacta
a luta palestiniana?

Há várias organizações que nos últimos...

Desde os Acordos de Oslo,

começaram a sentir que havia cada vez mais

palavras proibidas, organizações como...

Começaram a escolher
os próprios financiadores,

mas, com grandes financiadores,
é um dado adquirido que,

ou, pelo menos, generalizado,

não financiam projetos com palavras
como Nakba, colonialismo, BDS...

Grandes estruturas,
grandes agências de financiamento,

porque são palavras
vistas como politizadas,

e o discurso
numa certa área da ação humanitária

é a busca da naturalidade.

O que significa
para uma pessoa palestiniana

é provavelmente diferente
do que significa

para uma pessoa portuguesa ou europeia.

O diagnóstico
das organizações palestinianas

é que há o sistema
de financiamento

que contribui para esta
despolitização das organizações.

Uma despolitização artificial,

és despolitizado
quando escreves candidaturas,

mas dentro de ti, e como te organizas,

és a pessoa que sempre foste,

mas isso contribui
para uma despolitização pública.

Saberes que...

Estás a implementar
um programa numa escola,

mas não podes dizer
que o objetivo é trabalhar

a consciência nacional palestiniana,

ou combater o apagamento
da história palestiniana,

combater a erosão da memória
do que é ser palestiniano.

Vais falar de Nakba e de colonialismo.

Este enquadramento que é feito
por muitas organizações,

no papel,
não pode ser feito desta forma.

É mais feito
como promoção da literacia,

promoção de vários conceitos

que são vistos como neutros
e que não significam grande coisa.

Nos últimos anos,
várias organizações palestinianas

posicionaram-se contra isto

e foram recusando financiamento,

há ali um momento

em que começam a surgir
várias cláusulas de antiterrorismo,

que são bastante simples no papel:

"Nada de ligações
com organizações terroristas",

mas no cenário palestiniano,
várias são consideradas terroristas...

São de resistência palestiniana armada

e várias organizações palestinianas

não concordam com este
conceito ocidental de terrorismo.

Sobretudo, não poderiam garantir
o que é pedido pelos financiadores,

que é nenhuma pessoa
envolvida na tua ação,

incluindo beneficiários,
pode ter ligações terroristas.

Como sabemos,
várias pessoas palestinianas

quer tenham essas ligações

a organizações como o FPLP ou o Hamas,

ou outras organizações,
quer tenham ou não,

várias pessoas são presas
por terrorismo,

seja verdade ou não.

O conceito de terrorismo,
pelo que fui entendendo,

nem é só de luta armada,
cada vez está mais vago,

até só o discurso que se tem,

a forma de alguém falar em...

genocídio ou Nakba...

Há certos conceitos que já é tipo:

"Estás a ter um discurso terrorista,"

é uma coisa que cada vez está mais...

O que entra no pacote de terrorismo

é um bocado seletivo.
- É uma discussão

sensível no contexto palestiniano

porque Israel nos últimos 10, 15 anos

usou exatamente essa cartada,

de considerar várias organizações,
como a Defense Children International,

uma organização que trabalha com crianças,

com menores,
detidos nas prisões israelitas

considerou-a terrorista,
considerou a Al-Haq,

uma organização de investigação,

e a BADIL, por exemplo.

São organizações de investigação,

de advocacia pelos direitos...

Organizações de direitos de crianças,
desenvolvimento agrícola,

várias organizações foram criminalizadas

pelo governo e pelo exército israelita.

As suas sedes foram vandalizadas,

fechadas as portas,

houve uma campanha muito agressiva

contra os seus financiadores,
incluindo contra a União Europeia,

para pedir o fim do financiamento
destas organizações.

A palavra terrorismo

é muito sensível
para várias organizações palestinianas,

porque é a visão
de que a narrativa israelita está a vencer.

E há aqui...

Usa-se isto para dizer
que não podemos fazer o nosso trabalho.

Muitas pessoas palestinianas
foram presas por acusações

de terrorismo infundadas,
há uma lei militar sobre a Cisjordânia,

prisão administrativa de menores...
- Podes explicar isso?

A Cisjordânia é um território
onde se aplica a lei militar,

o exército israelita pode deter,

sem acusação e julgamento,

pessoas por tempo indefinido.

Há cerca de 3000 pessoas que estão

na Cisjordânia em prisão administrativa.

- Sem reconhecerem a acusação.
- Sem terem direito a julgamento,

sem saberem o motivo.

Podem ser alguns dias,
semanas ou até anos.

Então, isto...

Se a acusação for, por exemplo...

Ou a dada altura aparecer no seu...

Na sua ficha, que esta pessoa está presa

porque tem ligações ao partido FPLP,

que a UE considera
uma organização terrorista,

isto podia ser uma coisa
que invalidava que elas recebessem...

Fossem beneficiárias de um programa.

Várias organizações palestinianas

rejeitaram isto,

ficaram menos elegíveis
para financiamento.

Deixaram de receber
financiamento da UE e outras,

simplesmente,

chegaram ali a um ponto sem volta

de não compactuar
com esses modelos.

Por isso...

Nos últimos anos,
assiste-se a esta resistência

perante o modelo
de financiamento institucionalizado.

É também um fator
de divisão da sociedade,

porque nem toda a gente
tem a mesma postura perante isto.

Mas há uma...

Muitas pessoas têm a consciência

de que a libertação palestiniana
não vai ser financiada

por estes modelos

e de que o trabalho social
e político que fazemos,

de cuidados de saúde e educação,

não pode encaixar
neste modelo ditado

por agências em Genebra,
Bruxelas ou Londres.

Muitas vezes mantém o status quo

e também têm...

Acabam por definir aquilo que é...

Não é bem o status quo...

Aquilo que é OK e o que não é.

Acaba por definir
onde está o discurso.

Portanto...

De forma imposta,
e ia dizer internacional...

De forma externa...

Passaram a...

ditar os limites do nosso próprio...

Do nosso discurso,

da nossa própria resistência

e aquilo que é...

OK e que não é...

Ou seja... Sei lá...

Se na luta, ou no processo de libertação,

podemos ir daqui ali...

Se calhar, estão a pôr...

O financiador diz que só podes ficar aqui.

Para além disso,

para a esquerda ou direita, não é...

Já não é viável, é fora, é terrorismo,

é de muitas outras maneiras.

O trabalhador e... O trabalhador...

O trabalho do escritor...
Faço isto da aglutinação muitas vezes.

O ex-funcionário de uma ONG,
Saleem Haddad,

afirma que a ajuda humanitária
costuma aliviar sintomas da ocupação,

mas não tem interesse
em combater a causa,

muitas vezes.

Isso é um padrão que têm encontrado

na investigação?

Ou seja, só para não ser...

Não me acusarem
de estar a fazer acusações infundadas.

Tudo o que temos falado...

- Sou eu a tentar repetir.
- São padrões.

Sou eu a tentar repetir as ideias
de trabalhadores palestinianos.

Muitas pessoas falam do mesmo
que o Saleem Haddad fala.

Segundo as Nações Unidas,

um país ocupante tem de garantir

todo o tipo de cuidados e serviços
à população que ocupa,

e isso não é garantido
pelo estado israelita.

É uma questão interessante,

não sei até que ponto,

para as pessoas palestinianas,
isso seria algo admissível.

Há um discurso
entre organizações palestinianas

de que este status quo

das organizações
que prestam bastantes serviços

e mantém a existência
da Autoridade Palestiniana,

que, em termos de garantia
de serviços estatais,

é bastante pequena,

de que isso mantém o estado das coisas,

e mantém um estado
de não revolução e de não mudança.

E com tudo aquilo que nós falamos,

os projetos são muito pequeninos
para tentar fazer uma mudança,

garantir coisas a uma população,

e não permitem uma mudança estrutural.

Algumas pessoas têm
um discurso mais radical,

que é dizer...

Isto não é só aplicado à Palestina,

é dizer:
"E se não houvesse estes serviços?"

O que é que as pessoas fariam?

E o que é que esse estado de...

De ausência de organizações, permitiria?

Essa é uma pergunta muito grande,

tida de forma muito intensa no Haiti,
considerada a república das ONG,

talvez um dos casos mais paradigmáticos
onde as ONG são um pequeno estado,

que é dizer,
"E se fossem todas embora?"

"O que faríamos nesse lugar?"

É uma questão,

o Saleem Haddad
fala várias vezes nisso,

"Este não é o nosso modelo."

A maior parte das decisões tomadas

sobre onde investir,
que projetos fazer,

qual é a agenda, não é palestiniana.

É muito raro ver um palestiniano

diretor de uma organização internacional,

ou diretor do projeto da Palestina
dessa organização.

Isto é algo em mudança,

muita mudança nas ONG
de fazer este processo,

a localização da ajuda,

mas as chefias continuam a ser
maioritariamente internacionais,

a decisão sobre
o que é feito é tomada

em capitais europeias.

Isso desresponsabiliza
organizações locais,

como a Autoridade Palestiniana,

desresponsabiliza a ocupação

e mantém este status quo,
sem alteração há 30 anos.

Mas porque é um...

Muitas vezes, nas ONG,

e no discurso ocidental,

a neutralidade é muito valorizada
como valor ético.

Como é possível aplicar a neutralidade

num sistema de ocupação,

de colonialismo, de apartheid...

O que é a neutralidade na prática?

É uma questão muito colocada

a Saleh Hijazi,

é um ativista no movimento BDS,
que trabalhou na Amnistia Internacional,

falava dessa questão de,

"Como pessoa palestiniana,

dizer BDS e dizer colonialismo

é absolutamente importante."

"Tenho de o dizer."

A maioria
das organizações internacionais,

politizadas,
como a Amnistia Internacional,

não o dizem com estas palavras.

Foi preciso uma equipa enorme,

que envolveu palestinianos,

para que a organização fizesse aquele

relatório importante sobre apartheid.

Esse relatório
aparece décadas depois

desta palavra ser usada
pela população palestiniana.

Para muitos palestinianos,
isto é demasiado lento.

Demora muito tempo
a que esta politização seja feita.

Também se pode assistir a isso

com a palavra genocídio
aplicada ao que acontece em Gaza.

Esse reconhecimento
demora muito a ser feito.

As organizações agora dizem que...

Há indícios de...

A maneira como a sociedade palestiniana

avança e o que as ONG dizem,

em termos de discurso, é algo...

bastante diferente entre si.

Esqueci-me da tua pergunta.

Como era a neutralidade na prática.

Para muitos palestinianos,
a palavra neutralidade é problemática,

porque assume...

Na medicina,
a neutralidade é algo simples.

Tratas todas as pessoas de maneira igual.

Estás num sítio e tratas soldados

e pessoas milicianas da mesma forma.

Vais tratá-las,
vais salvar a vida delas.

Quando falamos de projetos sociais,

tem uma componente
bastante diferente.

Para muitos palestinianos,
neutralidade é normalizar

a ocupação, aceitar que existe,
não fazer nada contra ela,

não escolhes um lado.

Para muitas pessoas,
isto é claramente problemático.

E, no caso palestiniano,

neutralidade também significa
não dizer a palavra Palestina.

Por exemplo, para a ONU,

a chamada comunidade internacional,

a Palestina não existe,

existem os territórios
palestinianos ocupados,

não existe a Palestina.

Se fôssemos falar da Palestina,
que mapa usaríamos?

- Era o mapa...
- Da Palestina dividida?

Ou era o mapa da Palestina histórica?

Este é o conceito de neutralidade

e a forma como impacta o trabalho feito.

É o que permite não usar palavras
como colonialismo,

a Nakba,

porque isso seria assumir,

numa certa visão,

a narrativa palestiniana.

Seria assumir
que a Palestina histórica existe,

- e que aquele mapa...
- Tem um ocupante.

... e que o mapa de 1967 é uma ocupação.

Para muitos palestinianos,
políticas de neutralidade

são justamente a base
de manutenção do status quo.

Na série que vamos publicar,

chama-se Indústria da Ajuda,

é a forma como tudo isto,
a projetização, a despolitização,

não falamos muito,
mas é a maneira como

estes mecanismos
fragmentam a sociedade palestiniana.

Cada um compete por dinheiro,

pelo seu projeto, pela sua ONG,
pela manutenção da sua ONG,

isto fragmenta a sociedade civil,

e como as políticas de neutralidade
fazem a manutenção do status quo.

Tens muitas organizações
locais e internacionais,

mas nenhuma delas

consegue dizer
que está a lutar pela libertação da Palestina

ou estou a lutar pelo...

Se calhar é mais fácil por aí,

a lutar por um estado,
por dois Estados.

É, por exemplo, lutar para garantir...

cuidados do VIH nesta comunidade.

Surgiu-me agora,

é uma pergunta
em que não tinha pensado...

Que é... É só porque...

Por exemplo, alguém a ouvir-nos

pode "acusar-nos"

de estarmos num contrassenso quando...

Depois dizemos que...

Não se pode, por exemplo, fechar...

Por exemplo, a ONU...

Em Belém,
vai deixar de ter apoio financeiro.

E, normalmente, pessoas como nós
dizem que não pode ser,

é o único meio de subsistência
das famílias palestinianas ali.

Algumas pessoas podem pensar,

olha, vão-se todos embora...

Ou melhor, "se esta fechou,"

deviam estar contentes
por esta fechar."

Ao dizer, já tenho resposta a isto...

Tem de haver uma transição
e não pode ser...

"Esta fechou, estou contente,"

mas, quer dizer, a ocupação continua.

O apartheid continua,

os palestinianos
continuam a receber menos,

precisam de ter 3 e 4 trabalhos

para se conseguirem sustentar.

Sem uma transição,

aí vão estar só outra vez...

Estão outra vez
os palestinianos a pagar o preço.

- Não é?
- Sim.

O que tens a dizer a isto
quando temos este discurso?

Concordo bastante com as visões,

com o que tens estado a dizer,

mas não sou neutra,

e assumo, não sou despolarizada
em relação à Palestina

e à ocupação, portanto...

Como é que...

Qual é a resposta, no fundo,

que também podemos dar, neste sentido,

quando ouvimos que os Estados Unidos
vão acabar com o financiamento

de apoio aos refugiados palestinianos,

e mostramo-nos contra isso,

dizemos que é muito grave,

há muitas famílias a depender disto,

mas estamos a criticar
a indústria da ajuda.

Sim, acho que esta...

Acho que a resposta a isso é:
"É uma crítica ao sistema,

não aos serviços prestados,"

Não é uma crítica a garantir-se
cuidados de saúde ou alimentação.

É uma crítica da maneira
como esta ajuda é prestada,

que consequências tem
na sociedade palestiniana.

Acho que é um exercício
de complexificar...

Talvez esta conversa é muito geek,

muito filosófica,
porque é exatamente isso.

É questionar as bases.

Uma coisa que a Dima disse foi que...

Ela diz que...

Não temos de ter medo do...

Ou seja, também...

Se é complexo e a conversa parar aí...

Temos muito a coisa de:
"Isso agora é complexo."

- E depois?
- Certo.

Começa-se a falar disso,

se é complexo,
devíamos ter começado ontem.

Não é igual a inação.

Sim, estamos a complexificar

porque nos levaram a este ponto...

Sim, é complexo.

Esta é uma conversa
que vem da sociedade palestiniana,

não fomos nós que nos lembrámos

de perguntar às pessoas o que acham.

As pessoas e as organizações
estão a falar disto há muito tempo,

como um problema,

como um mecanismo
de perpetuação da ocupação

e como um problema estrutural, que não é...

só solucionado por eu,
organização como a BADIL,

recuso o financiamento da UE.

Sim, faço,
preciso que outras o façam

e de modelos alternativos de ajuda.

Modelos que sejam de iniciativa local,

que não sejam...

"Eu, em Genebra,
vou perguntar o que as pessoas querem."

Aquele projeto começa nas pessoas,

a resposta começa nas pessoas,

não é fazer um inquérito.

Quando falamos nestes problemas,

há muitas soluções que são...

Verificar listas.

Fiz um inquérito,
perguntei o que as pessoas queriam.

Não é um modelo
de participação eficaz,

O que as organizações reclamam

é uma mudança radical do sistema.

É uma mudança que...

Para muitas pessoas, é...

É decolonial...

E tem muitos componentes anticapitalistas

na maneira como olham para o que seria
a solução para este sistema

e o empoderamento
das organizações locais,

das comunidades locais,

para que a ajuda não seja prestada
de Genebra para Ramala.

Mas essa é uma alteração radical,

que não é fechar um escritório,

e tem outro componente,

muitas vezes injusto
para pessoas palestinianas,

terem de se posicionar pela abolição

de organizações das quais dependem.

A discussão é sobre o sistema,
nunca é sobre uma organização,

porque isso é muito injusto.

Para palestinianos,
é uma posição muito desconfortável.

Cria-se a dependência...

Cria-se essa dependência
na criação do problema e na solução,

mantém a dependência
e ainda se está a exigir.

Beneficiam os que dizem
que querem acabar com elas.

É uma discussão enorme na Palestina,

com as Nações Unidas.

É desconfortável
para uma pessoa palestiniana

criticar uma organização
das Nações Unidas,

quando a UNRWA,

a agência das Nações Unidas
para refugiados palestinianos,

é a sua garantia de representação política

e diplomática.

É uma organização com críticas,

querem fazer críticas.

É uma posição muito desconfortável,

porque é atacada

pelo lobby israelita.

E onde fica a voz das pessoas
que gostavam que ela fosse diferente?

É sempre a discussão na ação humanitária,

como criticas um sistema...

do qual estás dependente,

que achas que devia
ser radicalmente diferente?

E num mundo como o das ONG,

que é burocrático,

tudo no papel, etc.

Na verdade, quais têm sido
os desafios na vossa investigação?

As ONG têm sido transparentes ou não?

Como é ao nível de acesso a documentos?

Quais têm sido os maiores desafios?

Estamos a trabalhar
com organizações locais palestinianas,

este é um assunto há muitos anos,

não sentiram a visibilidade devida.

Há muita vontade de falar sobre isto.

O principal desafio
era a questão do desconforto

e como falas sobre estes assuntos

e pões as pessoas a falar destes assuntos,

de uma forma em que elas...

não sintam
que estão a cair no lobby sionista.

É uma expressão da Yara Hawari,

do centro de estudos da Al-Haq,

que fala nesta questão.

É uma posição desconfortável

em que somos colocados,

de criticar as organizações...

- Estás a defender...
- Exato.

Estás a criticar as organizações

que são criticadas pelo estado de Israel,

permanentemente,
para a sua dissolução.

Por isso é que se fala muito pouco...

E, na verdade, há um certo...

Uma divisão na série,

mas a maioria das pessoas
defende manter a UNRWA,

a agência das Nações Unidas
para os refugiados palestinianos.

Não querem um desmantelamento.

É uma reforma,
isto devia ser diferente.

É desconfortável,

as pessoas estudaram
em escolas da UNRWA

ou os pais trabalham lá.

É uma parte gigante
da cultura palestiniana.

Por isso, este desconforto permanente

onde são colocadas
as pessoas palestinianas,

é reflexo da ocupação,
é reflexo desta dependência

da ajuda internacional,
da visibilidade internacional,

de que as pessoas
são sempre dependentes.

Acho que é dos principais
desafios deste trabalho.

Como é que...

No meio da ocupação,

no meio de...

Tudo o que acontece,

como falas deste problema
que parece pequenino,

parece geek, parece...

Por que importa,
quando estão pessoas a morrer,

a morrer bombardeadas,
por que é que isto importa?

É um desafio gigante.

A escrutinar a ajuda.

O que estou a fazer?

Mas, no quadro geral das coisas,

- quando olhas para os últimos 30 anos...
- No fundo, mantém...

Que as pessoas continuem a...

ser mortas...

Mantém-se o sistema
que permite que as coisas aconteçam.

Olhando para o que já foi investigado,

que impacto achas que este trabalho...

... que esperança tens...

que este trabalho possa vir a ter

naquilo que é o debate sobre a Palestina?

Se puder esperar,

espero que possa complexificar o debate.

E que possa...

Possa tornar as coisas
menos preto no branco.

Este trabalho não pretende
dizer que as ONG são más,

ou as ONG são ótimas,

é trazer nuance
e menos preto e branco às coisas.

Conhecemos alguém
que dizia muitas vezes

que a Palestina está sob
várias ocupações e uma delas é as ONG.

É complexificar nesse sentido

e de perceber os múltiplos...

Vários intervenientes
que mantém as coisas como elas estão,

voluntariamente ou não,
é uma coisa muito importante

na questão das ONG...

Há mecanismos
que são propositados,

o sistema funciona assim,

as pessoas trabalham no dia-a-dia...

- Boas intenções.
- Exato.

As intenções não são estas.

Até podes estar consciente
dos mecanismos,

tal como todas as pessoas
com quem falamos estão,

mas não têm outra forma
de atuar dentro desse sistema.

Vais fazer o quê individualmente?
Desmantelá-lo?

Tentas o teu quinhãozinho no dia-a-dia.

Mas acho que complexificar...

Aperceberes-te dos mecanismos...

que tu, em Portugal, alimentas,

ou então...

as tuas crenças de que...

A ação humanitária só faz o bem.

Complexificar essas ideias,
questioná-las.

Acho que...

Acho que é talvez isso,

é algo paradigmático na ação humanitária,
de quem trabalha,

é o seu autoquestionamento
e a sua perceção de que...

não causar dano,

também se aplica à medicina,

acima de tudo, não faças mal.

É uma ponderação muito complexa,

podes ter as melhores das intenções,

achar que não há nada neste projeto

que possa ser mau,

às vezes,
as consequências são maiores,

e só se vêm muito depois.

Acho que é isso,
complexificar um bocado o que fazemos.

Vieste baralhar ainda mais.

Ótimo, obrigada pela conversa.

Obrigada mesmo.

- Há mais alguma coisa que...
- Acho que não.

- ... devíamos mesmo falar?
- Acho que não.

Ouvir a série quando sair.

- Quando é que?...
- Não faço ideia.

- Queria fazer esta pergunta...
- Um dia.

Eu adorava responder.

Adorava ter uma data específica.

Ainda faltam entrevistas

ou já estás em fase de edição?

Estamos mesmo a acabar
de escrever o terceiro episódio.

São três episódios
e um episódio extra.

Já tem trilha sonora?

Sim, em processo de...

Vai ter banda sonora,

várias entrevistas extra e minissérie.

- Estou muito ansiosa.
- Nós também.

- Obrigada.
- Obrigada.

Tanto a Human como o Fumaça

acreditam nas histórias

como um caminho
para a libertação coletiva.

Esta investigação do Fumaça
levanta uma questão muito importante.

A indústria da ajuda
está a ajudar a resistência

ou a perpetuar a ocupação?

Se consideras este tipo de investigações,

este tipo de histórias
e de conversas importantes,

este tipo de desconstrução,

junta-te à comunidade,

seja à nossa, seja à do Fumaça.