Governança Corporativa e Ética nos Negócios do Vinho
Pósgraduação unicinos.
Speaker 2:Bemvindos ao nosso podcast sobre governança corporativa e ética nos negócios do vinho. Eu sou a professora Daniela Perim, e neste episódio nós vamos discutir tema bastante importante para o sucesso então de qualquer organização. A importância da cultura organizacional e como ela influencia diretamente as práticas de governança. A cultura organizacional aqui fazendo uma introdução, é o alicerce sobre o qual todas as decisões e práticas empresariais são construídas. Então é conjunto de valores, crenças e práticas que definem essa identidade da organização, e acabam influenciando o comportamento dos seus funcionários, colaboradores, enfim.
Speaker 2:E aí no setor vitivinícola, essa cultura organizacional então ela pode ter impacto significativo na governança, afetando a tomada de decisão, a gestão de risco e e consequentemente a transparência. Na minha percepção, esse processo de transformação da cultura organizacional da organização passa então necessariamente pela cultura como base sobre a qual todas as demais práticas de governança são construídas, mas, quem vai falar conosco com muita propriedade sobre o tema de hoje é a doutora Luciana mães, a nossa convidada, querida amiga, a quem eu peço que se apresente e já agradeço pela disponibilidade de estar dividindo o seu conhecimento conosco, o seu tempo, e abrilhantando aqui a construção do conhecimento no nosso curso. Já fazendo pra ti mães a primeira pergunta. Como esse processo de transformação acontece na cultura organizacional, em termos de valores, crenças e comportamentos que influenciam como organização vai conduzir os seus negócios.
Speaker 1:Dani, muito obrigada pelo teu convite, muito feliz em estar aqui contigo. Então fazendo uma breve apresentação né, sou a professora Luciana Mamães, mestre e doutora em administração, com a área de pesquisa hoje muito voltada pra responsabilidade na inovação né o contexto de inovação responsável mesmo. Sou professora que dá no ensino né, tanto na graduação, nos cursos de de administração e aí trabalhei muitas muitas vezes a disciplina de estratégia e a parte da cultura não tem como fugir né da de quando a gente vai falar em estratégia organizacional, e também em MBA's no mestrado e doutorado em administração e de gestão educacional. E bastante feliz em estar aqui contigo conversando né, sobre dois temas ou três temas na verdade que são tão ricos né, que é falar de governança, que é falar de cultura e falar né desse setor porque pra nós aqui no Rio Grande do Sul é tão importante que é o setor vitivinícola. Gostei muito da tua introdução então já né encaminhando aí pra resposta dessa dessa tua primeira pergunta, gostei muito da tua introdução que tu já trouxesse aí a questão do conceito de cultura né, e é muito importante entender isso, obviamente como vários outros temas são vários os conceitos né, e eu vou reforçar, né, o conceito que tu já trouxesse e vou trazer aqui o conceito de robins que é lá, se não me engano, de dois mil e quatro, em que ele vai dizer que cultura é sistema de valores, e esse sistema de valores, esses valores, eles precisam ser compartilhados pelos membros dessa organização e que esses valores eles vão mudar de uma organização pra outra, né?
Speaker 1:E isso acaba nos norteando muito né, quando a gente vai vai tentar entender né, porque que muitas vezes uma empresa é muito diferente da outra, mesmo estando no mesmo setor ou mesmo regionalmente estando localizada né, na mesma região. E por que que elas são tão diferentes? Porque exatamente a cultura que vai fazer com que ela seja muito diferente e tenha sua própria personalidade, acho que dá pra gente chamar assim né. Dos maiores estudiosos aí da de cultura organizacional é o Edgar Shein, eu gosto muito né do do que ele escreve, do que ele fala sobre isso né. E ele vai trazer principalmente como principais elementos da cultura organizacional aquilo que tu trouxesse que é a questão dos valores.
Speaker 1:E a partir dos valores que a gente vai nortear todas as ações da empresa e tudo aquilo que acontece né, e a própria questão da da cultura ela vai se basear a partir dos valores né, mas a gente tem aí também a questão das crenças e os pressupostos da organização né, ritos rituais e cerimônias isso também é muito importante isso também né, carrega muito da cultura da organização, a questão das histórias, dos mitos e por aí vai. Mas buscando responder a tua pergunta mais mais objetivamente né, essa essa transformação da cultura organizacional ela muito dificilmente ela vai acontecer de uma forma drástica, salvo em determinadas situações, né, que eu até já vou comentar aqui né, quando é que ela se muda, quando é que ela muda de forma muito drástica? Em situações críticas, então em situações de crise e essa crise pode ser uma crise econômica partíssima ou uma crise inclusive de governança né, a gente viu alguns escândalos bem recentemente aí empresas do varejo né, que tem muito a ver aí com questão de de de governança e de falta de transparência e tal, e aí nesses momentos a cultura muitas vezes ela é modificada muito fora, muito rapidamente, mas fora essas situações, normalmente essa mudança de cultura ela acaba sendo acontecendo de uma forma mais gradual né, e ela vai começar pela revisão dos valores centrais da empresa, então no momento em que a empresa ela atualiza vamos dizer assim esses valores ou ela ela repensa os seus valores, isso tem acontecido muitas vezes em muitos setores né, as empresas principalmente aquelas mais antigas né, as mais tradicionais, elas vinham vinham seguindo, né, seguindo ali aquele aquilo que tinha de valor desde a sua fundação.
Speaker 1:Só que o mercado mudou muito, o consumidor mudou muito, o os empregados né, mudaram né a forma que eles querem se sentir dentro das organizações, isso fez com que muitas delas precisassem modificar os seus valores, E aí a gente vai falar no sentido de entender que sustentabilidade por exemplo né, acaba hoje sendo valor muito muito forte e muito predominante em várias empresas e aí principalmente no setor vinícola a gente tem visto esse movimento né, questões de, tu traz né a questão de governança e ética, a própria questão de ética, e a ética ela vai ter aí escopo gigantesco né, seja na relação da empresa com seus colaboradores, seja na relação da empresa com seus stakeholders externos, clientes, fornecedores né, e por aí vai. Mas nesse caso né, nessa definição desses novos valores que são introduzidos né, eles vão efetivamente acabar resultando em mudanças dentro da organização né. Baseado principalmente é é uma lógica de efeito cascata, eles vão começar a partir dos próprios líderes, né, porque eles vão mudar moldar esses novos comportamentos a partir desses novos valores, então dando como exemplo essa questão da sustentabilidade né, no momento em que a empresa entende que a sustentabilidade é valor importante, as próprias orientações que os líderes vão dar e as próprias definições internas vão acabar seguindo essa esse novo valor, e aí as coisas nesse efeito cascata vão acabar se modificando, né, a própria conduta dos colaboradores em todos os níveis vão acabar seguindo esses novos valores, né, E e, mas que ponto importante de quando a gente fala de cultura, porque tem muito aquilo daquilo que é a cultura que ela é tácita né, ou seja, aquilo que está escrito, aquilo que é uma orientação clara que vai estar dentro de uma, de documento, de uma normativa, de planejamento estratégico por exemplo, mas tem aquela também que é aquela que acontece nos corredores, no dia a dia né, que ela é menos formal e essa cultura menos formal ela é a que a gente precisa ter mais atenção né, porque essa, se nesse nível ela não for incorporada, esses novos valores não for incorporados, não adianta ter uma uma regulamentação, uma resolução interna, estar no planejamento estratégico porque não vai a empresa não vai absorver exatamente aquele valor, ela não vai agir a partir daquele novo valor.
Speaker 1:E aí, eu comentei né, essa questão de de dessas novas mudanças que vão muito a partir da sustentabilidade, hoje né, a produção orgânica né, também tem sido muito, muito vista com muitos bons olhos, e isso vai exigir muitas vezes uma mudança não só em processos e rotinas da organização, mas exatamente nisso né, minha minha empresa como todo acreditar nisso. Caso, exemplo que não é do setor de vinícola, mas uma empresa que gaúcha recentemente acho que uns dez, doze anos atrás, ela mudou fortemente a forma de enxergar né as suas relações aí com o seu com os seus produtos né, com seus fornecedores, com seus clientes, e muitos funcionários e altos gestores dessa organização, não acreditaram nesse movimento, entenderam que a empresa regrediu, que a empresa não não ia perder mercado e que efetivamente perdeu, mas que aqueles valores não condiziam com os seus valores pessoais, e essas pessoas foram embora da organização, e tudo bem, né, claro tem aí mas né, não é fácil quando daqui a pouco gestor ou vários empregados saem da empresa, mas é preferível né, essa questão de de de as pessoas entenderem os valores da empresa e concordarem com esses novos valores, Só assim a empresa ela realmente vai ser legítima, né, naquilo que ela entrega pro seu pro seu cliente.
Speaker 1:E eu vou trazer exemplo aqui, Dani, eu sei que eu falei demais já na primeira, mas muito rapidinho, né. Caso de uma vinícola californiana que é a Jackson Family Wines que ela passou né, por uma por uma transformação cultural bem significativa tempo atrás né. Exatamente adotando essas práticas agrícolas aí regenera investindo em tecnologia de energia limpa, tudo isso com foco de visão de longo prazo. E certamente isso né afeta aí a forma como os negócios são conduzidos e como ela vai se relacionar, tanto com seus clientes quanto com seus fornecedores. Perfeito,
Speaker 2:não, perfeita a sua colocação, a questão da legitimidade é muito mais poderosa do que a questão da legalidade né? Exatamente. Essa é uma conversa bem interessante quando a gente trata de cultura, mas vou aproveitar mais de ti e vou te fazer outra pergunta. Como a cultura organizacional então ela pode influenciar as práticas de governança, fortalecendo elas ou enfraquecendo? Especialmente no caso de uma cultura que valoriza a transparência.
Speaker 1:Tá. Muito boas a tua pergunta né? E aí eu vou só pegar gancho pra falar pouco, porque muitas vezes quando a gente fala da questão de da cultura que vai fortalecer ou enfraquecer por exemplo né, esses essas práticas aí de governança, quanto mais forte for a cultura, né, mais impacto ela vai ter, por exemplo, na questão de governança, e quando a gente fala em cultura forte, não necessariamente é uma cultura positiva, né, ela pode ter uma forte cultura, uma cultura enraizada por exemplo, na falta de transparência né, naquela, na fragilidade dos seus processos, na falta de responsabilização né, das ações que acontecem dentro e isso está tão enraizado por que por mais que ela ela tente, como tu bem dissesse, legalizar né, a forma positiva de fazer isso, nem sempre ela vai conseguir. Então eu acho que esse é o principal ponto né. O primeiro é analisar, é compreender como é essa nossa cultura, né.
Speaker 1:Ela é uma cultura que já está voltada para essas práticas de governança, práticas positivas de governança ou ela ainda carrega, por mais que se busca essas práticas de governança, ela ainda carrega aquele o jeitinho né, a indicação né, das promoções e que não são ali né, pela pela forma do mérito né, a transparência das informações e por aí vai. Então esse acho que é o principal ponto né, de quando a gente vai falar em cultura dessa dessa questão da de culturas muito fortes, né, aí sim o trabalho ele é muito maior, ele vai exigir muito tempo, ele vai exigir muita energia, né, dessas lideranças que querem fazer essas mudanças de de cultura né. Infelizmente a gente sabe que muitas vezes o que acaba acontecendo é precisar, mudar inclusive pessoas né, às vezes pessoas estratégicas dentro da organização pra conseguir fazer essa mudança de cultura, porque aquilo está muitas vezes tão enraizado na em determinadas pessoas aí, grupo de pessoas, que carregam esse comportamento né, e que elas não conseguem mudar. Mas tentando aí também ser mais objetiva da resposta né, essa cultura que vai valorizar transparência pra fortalecer essas práticas de governança, elas acabam criando esse ambiente em que as informações elas vão fluir muito livremente né, e os líderes são responsabilizados pelas suas ações.
Speaker 1:E aí faz parênteses, obviamente não só os líderes né, todas as pessoas dentro da organização acabam sendo responsabilizadas pelas suas ações. E quando a gente fala em responsabilidade, não é só a questão de, a a responsabilidade por erro, também a responsabilidade por acerto né, por fazer bem as suas coisas né. Isso vai acabar garantindo que essas decisões elas sejam tomadas com base em dados mais precisos né, uma ampla compreensão desses riscos e das oportunidades. Por outro lado, né, uma cultura organizacional mais fraca, e aí, aquilo que eu comentei né, que esses valores como a transparência não são levados a sério, aí sim a governança certamente vai ser enfraquecida. Vão vão vão ter processos falhos nessa falta de responsabilização né.
Speaker 1:Exemplo olhando pra questão das vinícolas é a transparência sobre o processo produtivo e a origem dos insumos, né. No momento em que esse processo ele é transparente né, a origem dos insumos ela é transparente, isso certamente fortalece a confiança do consumidor, e também, e aí tu sabem isso muito melhor do que eu, as próprias práticas de compliance né.
Speaker 2:Perfeito. Tu sabes que sem essa base sólida, e eu entendo perfeitamente as tuas colocações e concordo com elas, e não existe nenhum processo de transformação sem antes fazer uma autoanálise de uma uma autopercepção corporativa né? Inclusive, uma autopercepção não que começa na liderança mas invade todos os as áreas e as pessoas da da organização né, então se sem essa base sólida, é impossível implementar uma governança que case promover essas transformações significativas da organização. Tu vê que a cultura organizacional ela é exatamente alicerce sobre o qual qualquer mudança pode e deve ser construída, especialmente quando a organização fala ou pretende ou almeja avançar em sustentabilidade né, ambiental, financeiro ou social. E essa transformação cultural é exatamente o que permite que toda e qualquer organização se aluste e passe aí por processo evolutivo né, diante de uma nova proposta de valor.
Speaker 2:Então é fundamental pra governança das vinícolas e aí fechando já a nossa conversa infelizmente né, porque influencia a tomada de decisões, a gestão do risco e a transparência. E isso é essencial pra que as organizações sejam perenes e tenham sucesso no setor né. Então com isso doutora Maines, muito obrigada por compartilhar a sua visão e por nos mostrar como é possível essa virada de chave. Não é fácil. E não é simples, mas é possível.
Speaker 2:E é duradoura, longeva e tem ciclo virtuoso de resultados né? Então eu agradeço a ti especialmente, e a todos que nos acompanham até aqui. Espero que tenham gostado desse episódio, e que continuem conosco nas próximas discussões. Até o próximo podcast, abraço Leinz.
Speaker 1:Obrigada Dani. Obrigada pelo convite e foi prazer conversar contigo sobre esse tema tão tão rico. E até breve. Até. Pósgraduação Unisinos