Contextos do Mercado de Vinhos
Pósgraduação unicinos.
Speaker 2:Olá, bemvindos ao podcast da disciplina iniciação ao mercado de vinho. Eu sou o professor Israel Bertamoni e no podcast de hoje vamos falar sobre a enologia, a produção de vinhos na Oceania. Para falar, né, sobre esse assunto, hoje eu tenho convidado, sommelier Maurício Rolloff, que vai dar início então a essa conversa, né, vai trazer pouquinho, né, do dos seus conhecimentos que estão a essa produção. Então primeiramente seja bemvindo Maurício, eu gostaria que tu desse pouquinho do teu histórico, falasse pouquinho do teu histórico pra depois nós iniciarmos a conversa.
Speaker 1:Bom, antes de tudo, obrigado Israel pelo convite, é prazer estar aqui conversando sobre vinhos. Meu nome é Maurício, eu sou professor, vicepresidente e diretor de ensino da Associação Brasileira de Sumelheiros no Rio Grande do Sul. Eu tenho uma empresa também que além dessa função didática trabalha com consultoria, com empresas no ramo de vinhos e demais bebidas. E tenho carinho muito grande pelo MC, nos trabalhei por quase anos junto ao curso de gastronomia, então é prazer estar aqui hoje conversando contigo e num período que é bem apropriado apropriado pra tratar de vinhos da Oceania, eu tive a sorte de estar lá no ano passado, e
Speaker 3:e foi barato assim, foi grande aprendizado, e agora acho que tem algumas coisas aí pra
Speaker 1:pra colaborar com essa conversa. Perfeito. Então era
Speaker 2:Perfeito. Então era justamente isso que eu que eu ia te perguntar né, eu sabia da dessa tua viagem né, dessa tua ida pra pra essa região, e eu queria entender pouquinho né, eu queria que tu falasse pouquinho sobre como tu vê hoje a produção na Oceania, né? Nos países que tu esteve e quais foram esses países e como tu vê assim essa essa produção, né? Como que foi vivenciar isso nessa região? Bom,
Speaker 1:a Oceania é pra gente aqui no mercado brasileiro é quase segredo assim né? Porque levando em conta a distância e o posicionamento premium de algumas das vinícolas desses dois países, essa é uma importação que pro Brasil acaba se tornando muito cara. É chegar aqui ele acaba agregando muito valor, acaba ficando muito caro e com isso o que a gente tem aqui no Brasil ou são produtos que na sua origem são de entrada, né, são são produtos mais simples e que acabam chegando aqui a preço mais elevado ou então são produtos que obviamente por serem de posicionamento premium acabam chegando aqui por valor muito alto e competindo com regiões muito importantes né do mundo do vinho então é o tipo de coisa daqui a pouco eu vou ficar em dúvida entre tomar grande acirrada Austrália ou pelo mesmo preço acirrada do do Norte do Roni ou então vou tomar Pinot Noir da Nova Zelândia ou vou tomar da Borgonha né porque eles estão competindo em preço aqui no nosso mercado. E é uma pena realmente porque isso faz parecer que a diversidade desses dois países, pra nós assistindo aqui do nosso ponto de vista da da da disponibilidade do mercado brasileiro, a diversidade, a oferta acaba sendo muito restrita né.
Speaker 1:E obviamente são dois países que têm uma veia exportadora muito grande, né? A Austrália sobretudo é país que se dispõe a abastecer as prateleiras de lojas e supermercados do mundo, assim é país muito competitivo em termos de exportação. Nova Zelândia também, mas a Nova Zelândia não tem tanto foco em abastecer prateleira, eles têm foco em posicionamento premium mesmo, né, a maior parte das vinícolas tem uma produção muito restrita e acabam trabalhando com esse conceito de de escassez de produção limitada pra se posicionar muito bem assim no mundo do vinho e por mais então que que que sejam países de v exportadora que têm essa vocação exportadora do outro lado né do no no hemisfério oposto aqui eles acabam chegando com poucas opções. E, pra trabalhar bem esse esse perfil exportador né esse essa essa vontade de estar em muitos mercados, obviamente tanto a Austrália quanto a Nova Zelândia trabalham os seus vinhos mais estereotipados vamos dizer assim são os seus grandes símbolos né as suas bandeiras vitivinícolas No caso da Austrália, a gente tem principalmente a Uva Shirá, né, que inclusive se tornou algo tão próprio na na na Austrália que acabou inclusive difundindo uma grafia própria pra variedade né, que hoje em dia é usada também por outros países, mas a Austrália foi o país que conseguiu estabelecer aí uma nova grafia de como escrever o nome dessa variedade né então ao invés da grafia francesa que é SYRAHA Austrália por uma atrapalhada histórica lá no passado acabou adotando uma grafia que é SHIRAZ mas é a mesma uva, e é a uva simbólica da Austrália.
Speaker 1:E embora, de novo a diversidade vitivinícola Austrália seja gigante eles têm muitas variedades em cultivo muita experimentação muita novidade mas é país que tem na Chiha esse esse símbolo vitivinícola né e eles trabalham isso muito bem, então é uma uva que se posiciona em muitos mercados, como símbolo australiano e depois de certo momento, as pessoas depois de degustarem alguns exemplares de Shiha australiano, depois de conhecer produtores de qualidade, algumas marcas mais famosas, o consumidor se sente confiante de variar e se sente confiante de daqui a pouco provar outras uvas no caso da Nova Zelândia é país que também tem uma diversidade muito grande mas trabalha não o vinho tinto mas sim vinho branco né o grande símbolo da Nova Zelândia em termos do Beach vinícolas é o Vassovignon Blanc e e que não tem não tem esse esse histórico de uma grafia diferente, mas tem histórico de estilo diferente né até os anos setenta mais ou menos, a a Nova Zelândia não era ninguém no mapa vitivinícola era país que obviamente tinha produção mas bastante limitada, foi país que passou por altos e baixos em termos de produção e qualidade, e a partir dos anos setenta eles começam a vinificar Sauvignon Blanc num estilo muito próprio, né, com com temperatura baixa de fermentação, mantendo muito esse aroma frutado, grande nitidez de aroma, aroma herbáceo muito característico que lembra pimentão, aspargo, arruda, então ainda que sejam aromas muito nítidos assim, são vinhos de muita refrescância, de muita complexidade e que estabeleceram
Speaker 3:novo
Speaker 1:parâmetro de Sovio blanc pro mundo né, e é o tipo de produto que caiu nas graças assim do mercado e virou novo novo parâmetro então, quando a gente vai usar como referência por exemplo sovioblan de qualquer parte do mundo e percebe esses aromas mais herbáceos nítidos muita fruta tropical a gente geralmente faz essa referência né esse é sovioblan que lembra muito o da Nova Zelândia, então virou ponto de referência. E e é bacana isso porque esse posicionamento de explorar o as uvas simbólicas, esse posicionamento de explorar esses estereótipos, eles como eu mencionei eles acabam alavancando esses países né ou pelo menos até agora é é modelo de negócio que funcionou muito bem pra pra vários países né então a Argentina fez a mesma coisa com a Malbec, o Chile fez a mesma coisa com a carne de neve e a Cabernet Sauvignon então os os países do Novo Mundo têm essa essa esse ímpeto de daqui a pouco se abraçar em uvas simbólicas num modelo de negócio que principalmente ali nos anos noventa dois mil deu muito certo e deu muito certo inclusive no exemplo aí da Austrália e da Nova Zelândia. Agora, ao mesmo tempo em que pra indústria é símbolo importante e ajuda a vender garrafa e ajuda a se posicionar no mundo do vinho, é é modelo muito limitante também né?
Speaker 1:Porque, quando assim tendo a oportunidade de estar lá, tendo a oportunidade de provar diferentes vinhos, a gente percebe que 00A diversidade é muito maior, né, então a gente tem, por exemplo, grandes exemplares de, na Nova Zelândia, né, de Sovio Blanc é claro, de Pinot Noir, que é uma uva que vem se destacando muito na região, mas também tem excelentes exemplares de Chardonnay, tem excelentes exemplares de algumas uvas do Sul da França né, então tem belos exemplares de Grenache alguns exemplares de Muvedra a própria Sirat tem boa penetração na Nova Zelândia e da mesma forma acontece com a Austrália a indústria vitivinícola da Austrália não se limita a né é país que trabalha muito bem, Chardonnay trabalha muito bem Sauvignon Blanc também, mas trabalha essas demais uvas do Sul do Roni, tem corte próprio praticamente de de serrar com Cabernet Sauvignon, tem corte, vem vem se destacando no corte GEGSM né, vem se destacando no corte GSM que é o corte de renasce Ray Muvedre, vem se destacando com o de alta qualidade então é isso é é é são países que oferecem muito mais do que aquilo que a gente ouve e falar ou que a gente estuda quando está está se apropriando aí do do mundo do vinho e a gente relaciona as uvas a determinados países, mas é preciso ter em mente que sempre tem espaço pra surpresas e pra alta qualidade também com outros estilos e outras variedades.
Speaker 2:Perfeito. Porque eu acho que também é uma tendência né Maurício de de alguns países principalmente no do do novo mundo, né? Né, firmar mercado, né, como tu falaste de uma de uma única uva, né, enfim, de alguns exemplares, mas ter também essa essa diversidade, né, e que e que é uma faixa tendência também desse público né, de novo público querer justamente esses diferenciais né, que acabam às vezes não chegando no né, como no Brasil por exemplo. Acho que isso reflete muito muito disso. Mas eu queria te perguntar em relação a ao terroir né o que que tu encontrou assim, que que tu percebeu em relação às paisagens por onde que tu passou e quanto à produção, se é uma uma produção mais tradicional ou o uso da tecnologia também já está sendo aplicado enfim na Oceania?
Speaker 1:É o bom no caso da Austrália, assim antes antes de entrar nos países de maneira específica, o qualquer país produtor de vinho no mundo vai usar a cartada da diversidade né, vai usar a cartada da da grande multiplicidade de terroirs, porque nenhum país produtor de vinho quer ser conhecido por estilo único. Então né, no momento em que país ou uma região se identifica com apenas tipo de vinho, de repente o consumidor vai lá toma dois três ele pensa bom agora eu já conheço não preciso tomar mais. Então AA00 símbolo né ter a diversidade como símbolo do país é algo que todos os países todas as regiões procuram. No caso de países grandes como é o caso da Austrália, é esperado que tenha muita diversidade né? E a Austrália, a gente olhando no mapa mundi a gente se engana, porque a gente olha a Austrália parece uma ilha isolada do outro lado do mundo, e mas é é país muito grande, e pra conhecer as diferentes regiões é preciso rodar muito né então, teve regiões assim que ficaram inviáveis em termos de logística porque a gente olha no mapa e diz ah não mas isso aqui deve ser uma viagem de duas três horas e na verdade seriam viagens de doze horas né então é tudo bastante distante assim, quando a gente olha pro mapa mas de novo é país grande é esperado que tenha muita diversidade.
Speaker 1:No caso da Nova Zelândia é surpreendente porque é país pequeno e e assim como outros países pequenos né sei lá exemplo de Portugal são países realmente de dimensões menores mas que oferecem essa diversidade esperada de bons países vitivinícolas né essa essa ampla, oferta de de estilos essa ampla oferta de de vinhos vinícolas vinhos de clima frio vinhos de clima quente então tudo isso é marcante assim realmente diversidade nos dois países. Mas, o que eu acho realmente importante destacar aqui, no caso da Austrália sendo país muito grande mas com perfil bastante quente né, a Austrália é conhecida pelas suas praias, pela pelos esportes de aventura EEE coisas ao ar livre né atividades ao ar livre, então é país bastante quente na época de colheita obviamente isso vai refletir no perfil dos vinhos então são vinhos que geralmente são mais potentes, mais alcoólicos mais frutados com amplo uso de madeira então eles reproduzem muito assim essa esse modelo novo mundista né inclusive ajudaram a consolidar essa imagem do que que é vinho do do novo mundo. No caso da Nova Zelândia, são alguns dos vinhedos mais ao sul do mundo, então aqui a gente vai ter vinhos mais com perfil de clima frio de mais elegância de mais acidez uma acidez brutal inclusive nos vinhos persistente, eles são refrescantes então são se contrapõem muito né não não impede que a Nova Zelândia tenha vinhos mais encorpados nem que a Austrália tenha vinhos mais ácidos EEE elegantes.
Speaker 1:Mas em geral isso se reflete muito assim em termos de terroir são países bastante didáticos. E falando nesse perfil didático né dos vinhos, vou aproveitar o gancho do teu último comentário justamente dizendo isso né os países do Novo Mundo muitas vezes pela ausência assim de grande histórico dessa tradição, desse renome de marcas centenárias né, ele são países que apelam muito pro pro vinho varietal, pras uvas pelo fato de serem vinhos muito didáticos então a pessoa que não entende nada de vinho, daqui a pouco se ela começa a tomar vinhos que ela precisa entender a história a tradição a geografia, isso acaba afastando o consumidor iniciante. Muitas vezes, esses países do novo mundo se pegam, se apegam aliás no no na variedade na uva né, então, em vez de de ter que aprender sobre a história ou a geografia do país, eles vão aprender basicamente a respeito de uva, e daí assim eu tomo uma tomo duas tomo três exemplares né tomo dois três exemplares daquele daquele vinho daquela uva e daqui a pouco já me sinto pouco mais próximo pouco mais proprietário daquele conteúdo e tanto a Oceania, tanto a Nova Zelândia quanto a Austrália fizeram isso muito bem nos últimos anos.
Speaker 2:Perfeito. E e agora acho que é uma última pergunta assim só pra pra eu ver o que que tu o que que tu imagina como tendência como posicionamento da Oceania frente aos outros países assim, e como que ela está se posicionando, né? E isso tu tem uma ideia de, uma visão assim de ah eu acredito que a Oceania ela vai integrar né os grande as grandes produções, integrar os grandes vinhos do mundo. Como tu vê isso assim dessa tendência?
Speaker 1:Bom tem são países que por terem indústrias muito modernas assim e inclusive vou aproveitar porque eu acho que eu deixei parte da última da da última pergunta sem resposta, Mas, são países que por terem uma estrutura muito moderna de produção, adotam muito a tecnologia né? Então tem algumas coisas que que são marcantes nesses dois países e e que ainda são vistos até como desconfiança em outras partes do mundo, mas que, por meio da produção vitibinícola da Oceania vem se comprovando como aspectos muito positivos assim na produção de vinho internacional. Acho que o melhor exemplo disso é a vedação Scroocap, né, que é algo que foi inventado na Oceania lá nos anos setenta e vem se disseminando mundo afora. Hoje em dia a gente tem grandes marcas, grandes vinhos, sendo fechados né, sendo vedados por esse tipo de fechamento, e e é fechamento confiável, de tem certo preconceito aí com esse tipo de vedação. E na principalmente na Austrália e na Nova Zelândia a gente vê grandes vinhos sendo fechados com esse tipo de vedação, sendo exportados com esse tipo de vedação, eles acreditam muito assim na Scroo Cap e essa esse é exemplo de como eles adotam algumas tecnologias sem medo e ao mesmo tempo conseguem convencer o mundo da sua qualidade né não é trabalho que acontece da noite pro dia mas é algo que a produção da Oceania vem convencendo aí o mundo a esse respeito.
Speaker 1:Eu acho que outra questão bem importante pra gente falar em termos de tendência, não vou dizer liderado necessariamente mas assim com grande reforço por parte desses dois países são os vinhedos de de tratamento orgânico ou biodinâmico né então existe numa nessa parte do mundo debate muito grande a respeito de sustentabilidade a respeito de mudanças climáticas né e esse é discurso que a gente não ouve em qualquer lugar, não não não ouso dizer que é exclusividade da Oceania porque não é, uma boa parte do das zonas vitivinícolas do planeta vem conduzindo essa conversa, eu acho que aqui na América do Sul ainda é tema mais tímido né que na a no qual a gente não vem avançando muito, ainda que seja extremamente necessário, pertinente, mas a gente vê esses países falando muito em redução do do uso de defensivos agrícolas, de melhores práticas de manejo, falando de de vinhas velhas e a longevidade das videiras, então existe assim uma preocupação com o bemestar ambiental né do do bom tratamento do do vinhedo, bom tratamento do campo, pra ter impacto menor no no ambiente, pra ter uso mais racional de recursos, e traduzir isso em vinhos cada vez mais limpos, mais bem feitos, mais confiáveis e que traduzam melhor o sentido de terroir.
Speaker 1:Essa é uma discussão bastante importante e da qual a gente vai ouvir falar muito aí nos próximos anos e nos quais os países da Oceania vão ser atores protagonistas sem dúvida nenhuma.
Speaker 2:Ótimo ótimo. Bom Maurício então, já vou finalizando né dentro do nosso tempo aqui, mas o que a gente pode concluir a partir né desse podcast era tentar compreender pouco mais né dessa dessa produção e da cultura do vinho da na Oceania né? E pra né complementar e e entender ainda mais sobre a complexidade né e a inovação que está por trás dessa indústria né e que está em ascensão no mundo dos vinhos. Essa evolução que eu acho que vai vir também a partir da da Oceania né, a partir das tecnologias, questões de sustentabilidade como tu falou né agora no final, vão ser algo que que de certa forma vão impulsionar né e vão trazer esse reconhecimento né dessa região né, levando então para o cenário global. Bom, esse podcast está inserido dentro da disciplina de tendência dos vinhos e hoje então eu agradeço a presença do professor Maurício, né, e agradeço a tua disponibilidade em estar conosco e muito obrigado Maurício, não sei se tu quer fazer é só uma fala final enfim.
Speaker 1:Não eu que agradeço o convite né, sempre prazer estar aqui batendo papo contigo e falando sobre vinhos sempre que o tema for esse pode contar comigo.
Speaker 2:Muito obrigado. Então neste só pra finalizar neste podcast vocês puderam complementar os estudos do hub Leitura, né, com os vídeos do hub visual. Acompanhe os próximos materiais e não deixe de escutar os podcasts a seguir. Bons estudos e até breve.
Speaker 1:Pósgraduação unicinos.